O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 4 – Premissas de Futuro

Posted on 28/01/2011. Filed under: Finanças |

Até aqui…

Para quem leu as partes 1, 2 e 3, espera-se que:

  • Compreenda o que significa uma empresa “cara” ou “barata”, segundo o P/L
  • Entenda a relação entre o P/L da bolsa e o P/L do custo de oportunidade (Renda Fixa)
  • Assuma que os P/Ls altos (ou baixos) costumam retornar para as médias de mercado e/ou dos setores
  • Saiba extrair os principais fundamentos das companhias a partir da leitura dos prospectos
  • Saiba calcular a estimativa de P/L a partir da leitura dos prospectos

Agora, o futuro

Daqui por diante o que interessa é o que pode acontecer com a empresa no futuro.

Logo o futuro, do qual ninguém pode ter certeza…

Antes de continuar, vale uma lembrança: Projeção é coisa de profissional, o que o investidor vai fazer adiante é apresentar estimativas sobre os fundamentos da empresa e da economia, para ver como ficaria seu investimento, caso as premissas se verifiquem.

Portanto, nesse processo não há certo ou errado, há apenas bom senso.

O custo de oportunidade em 5 anos

A premissa básica em relação à economia restringe-se à taxa de juros (líquida de IR) para os próximos 5 anos.

Segundo o que foi colocado na Parte 2 dessa série, um investidor conservador limitará o P/L máximo estimado para a Cia. num valor igual ao do P/L da renda fixa. Já um moderado, estimará esse mesmo P/L máximo em até 35% acima do P/L da renda fixa.

Esses são parâmetros sugeridos, com base em observação e empirismo. Cada investidor poderá alterá-lo se desejar e se sentir confortável para fazê-lo.

Apresenta-se, a seguir, um cenário onde a taxa de juros da economia oscila para cima nos próximos 2 anos (tomando por base o último ano com dados financeiros do prospecto) depois cai a 9,5%.

Considera-se um IR de 15% (longo prazo, 2 anos ou mais).

Perceba que, ao final, quando atingir 9,5% ao ano, o P/L da renda fixa estaria em 13,84.

Por que 5 anos?

É um prazo razoavelmente grande para que a empresa volte a múltiplos normais de mercado. Dificilmente uma companhia apresentará crescimento muito grande, por muito tempo e ainda manterá perspectivas de continuar crescendo tão fortemente.

Em resumo, é raríssimo crescer 30% – 40% por três anos seguidos e ainda manter essa expectativa.

Para investidores mais conservadores, pode ser razoável considerar que esse P/L retorne em menos tempo. Isso poderá ser trabalhado pelo próprio usuário do método.

Por que retirar o IR da renda fixa?

Conforme demonstrado no livro “O Mercado de Ações em 25 Episódios“, o investidor de longo prazo tem estratégias simples para não carregar “estoque de imposto” em sua carteira.

E a lei permite ao investidor individual vender até R$ 20.000 de sua carteira sem que precise pagar imposto.

A planilha com as premissas do investidor

Um investidor hipotético está avaliando entrar ou não no IPO da Arezzo. Para usar o método INI, ele vai precisar estimar alguns números importantes.

Crescimento dos lucros para os próximos 5 anos

A Arezzo está partindo de um lucro acumulado em 2010 de R$ 63,9 milhões. Ainda há o quarto trimestre para apurar e, talvez, esse lucro seja ainda maior.

O lucro acumulado em 12 meses mais recente (R$ 63,90) será usado como base para o crescimento dos lucros nos próximos 5 anos.

Se o investidor quiser partir de uma premissa (com base no crescimento histórico) um pouco maior, já indicando uma estimativa para o lucro TOTAL de 2010, incluindo o quarto trimestre que ainda não foi divulgado, poderá fazê-lo, mas estará sendo MENOS conservador.

Na concepção desse investidor hipotético, a Arezzo, com o aporte de capital, terá os seguintes crescimentos de lucro nos próximos anos:

  • 2011 – 40% em relação ao ano anterior
  • 2012 – 35%
  • 2013 – 30%
  • 2014 – 25%
  • 2015 – 20%

O investidor sabe que essas estimativas têm base no seu próprio julgamento e refletem o que ele próprio acredita ser possível para o lucro da empresa.

Se for possível ler algum relatório de analista profissional que apresente projeções, tanto melhor. Mas raramente são divulgados com esse nível de detalhe do valuation.

Variação dos P/Ls para os próximos 5 anos

O mesmo investidor sabe que a Arezzo poderá abrir com um P/L de 23,55, mas que poderá, em até 5 anos, ajustar-se à média do mercado.

Mesmo sabendo que o setor varejista no Brasil apresenta P/Ls superiores a 40, ele não quer se arriscar assumindo uma premissa tão agressiva.

Como, em sua própria expectativa, o P/L da renda fixa será de 13,84, em 2015, o investidor apresentou as seguintes estimativas para os múltiplos MÁXIMOS dos próximos anos, para a companhia:

  • 2011 – 20,00
  • 2012 – 18,00
  • 2013 – 15,00
  • 2014 – 14,00
  • 2015 – 13,84

Outros itens para a planilha

Para completar a planilha são necessários os seguintes dados:

  • O número total de ações (88,54 milhões)
  • O valor estimado da cotação de fechamento da oferta pública (R$ 17,00)

Le gran finale!

De posse de todas aquelas estimativas, o investidor hipotético já pode montar uma planilha que lhe indique o que poderá acontecer com a cotação da Arezzo, caso suas premissas se verifiquem.

Vejam:

Se as premissas desse investidor hipotético se verificarem, ele verá o seguinte:

  • O lucro sairá de R$ 63,90 milhões para R$ 235,50 milhões
  • O P/L cairá de 23,55 (abertura) para 13,84 (2015)
  • A cotação da companhia irá a R$ 36,81
  • A variação percentual, em 5 anos será de 116,6%

O investidor está SEMPRE por sua conta e risco!

Os números acima são apenas ilustrativos, para que se possa demonstrar o uso do método INI para avaliação de IPO´s.

Não há qualquer julgamento técnico e financeiro a respeito da empresa ou do prospecto, apenas estimativas com objetivos educacionais.

Montar uma planilha para avaliar IPO´s segundo suas próprias premissas, com base no que foi exposto, é muito simples.

Já estimar os múltiplos e o crescimento dos fundamentos não é tarefa tão fácil. O papel aceita tudo, assim como o Excel, portanto seja prudente em suas premissas.

Lembre-se que, por mais que alguém tenha lhe dado uma dica quente ou que um upside de 100% esteja indicado no relatório do analista profissional, será sempre o SEU DINHEIRO que estará em risco.

Seguindo a linha de raciocínio do INI, da Better Investing e da Federação Mundial de Investidores, a sugestão é sempre investir com consciência das premissas que estão em jogo e com uma estratégia bem definida em termos de “evolução patrimonial”.

Mas e se…

Sempre haverá otimistas.

E por que não colocar um P/L futuro de 40, como das outras varejistas?

E por que não colocar um crescimento de 50% ao ano para o lucro?

Sempre haverá pessimistas.

E se a taxa de juros for a 20%?

E se a empresa apresentar crescimento menor, digamos, 10% ao ano?

O Método é democrático!

Essa é a “democracia” do método. Tem lugar para todos. Basta colocar suas premissas em suas próprias planilhas.

Claro, sempre por sua conta e risco!

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4 Respostas to “O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 4 – Premissas de Futuro”

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Olá Portinho,

Belas planilhas, contudo note que o mercado não se comporta normalmente, quase linearmente como você quer didaticamente colocar. É só pegar o comportamento de determinada ação e linearizar segundo suas premissas (que aliás, são várias). Notará que ajustado pelas suas premissas em t-1, suas estimativas de preço estarão 80% do tempo muitos desvios da média, ou para cima ou para baixo. Por isso que análise de múltiplos não funciona. Não se conhece a empresa, o setor, a macroeconomia. É só uma técnica de regra de 3, não acha?

Oi Luciano,
Peço que explique melhor sua crítica.
Você afirmou que minhas estimativas de preço (que não são minhas, são apenas exemplos didáticos) ficam 80% do tempo muitos desvios da média.
Não entendo como uma estimativa, que é algo futuro, possa estar desvios fora da média. O fato ainda não ocorreu para sabermos.
Com relação ao passado, é fato, retirado dos balanços.
Gostaria realmente de entender sua crítica. Se puder, elabore num excel ou word e coloque um link por aqui. Terei prazer em ler e postar.
Quanto ao final: não se conhece a empresa, o setor, a macroeconomia etc., devo argumentar que a planilha serve aos usuários do Método INI, que já compreendem a necessidade de ler e acompanhar balanços, jornais etc.
Quanto à crítica ao uso de múltiplos, há farta literatura comprovando sua utilidade.
No livro Mitos de Investimento, Damodaran faz pesquisas em 130 anos de dados no Dow Jones que mostram o value investing dando banho no growth investing, nos fundos e no próprio índice.
Ele usa os filtros de Graham e chega a ter 2x a rentabilidade do índice. Recomendo a leitura.
Agora, ele demonstrou isso para vários períodos no passado.
Com relação ao futuro, concordo com você que não há garantias.
Há apenas CRENÇA.
E com base nisso é que respondo seu último questionamento: Não acha?.
Não. Eu não acho. Eu, pessoalmente acho que o método INI funciona, que a avaliação por múltiplos também funciona.
E respeito quem ache que não funciona.
[]
Portinho

Muito interessante Portinho! Uma análise feita com os pés no chão, o que dá segurança ao investidor. Basta pelo menos que o investidor acompanhe os 4 balanços da empresa anualmente e compare com suas expectativas, feitas neste momento.

Como vc comentou, a parte mais difícil é estimar o quanto a empresa irá crescer, mas levando em consideração o seu pequeno histórico e agora o dinheiro em caixa, esperar um crescimento em torno do que vc colocou não seria mto otimismo. O problema é que ela acabou saindo um pouco mais “cara”, em R$ 19,00, mas com boas perspectivas ainda sim.

De qualquer forma, ainda acredito em uma queda no P/L, como vc citou, antes de seguir forte.

Abraço,

[…] O Método INI para Avaliação de IPO´s Parte 4 Premissas de Futuro […]


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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