O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 2

Posted on 25/01/2011. Filed under: Finanças |

Relembrando a Parte 1…

A função da primeira parte da série sobre o Método INI para IPO´s foi sugerir a importância dos múltiplos fundamentalistas, especialmente o P/L, na avaliação de uma companhia.

No início, a função foi mostrar que empresas e setores sobre os quais há muito conhecimento, muita pesquisa e, principalmente, muito histórico, costumam apresentar P/Ls mais comportados, menos voláteis e mais próximos da média de mercado ou da média do setor.

Para colaborar com a tese foram convidados Rober Shiller, Jeremy Siegel e Damodaran.

Ao final, para os mais céticos, fez-se uma varredura entre os P/Ls do setor varejista brasileiro, há alguns anos apresentando valores muito acima da média brasileira, e comparando-os com seus principais pares internacionais.

Nesta Parte 2, será discutida a questão abaixo:

O que seria, então, um P/L adequado para o mercado de ações, no longo prazo?

Pergunta complicada de acertar a resposta, mas bem simples de entender e saber se defender com bom senso e respeito à lógica financeira.

O que está por trás do valor do P/L é, em resumo, a expectativa de retorno do investidor.

Quando se lê quem a empresa X tem P/L 40, quem a compra não está esperando que vá levar 40 anos para retornar seu investimento (2,5% ao ano em juros simples), mas que a empresa (o L do P/L) vá crescer muito rápido.

Não existem mercado eficientes na prática, mas é razoável esperar que a grande maioria dos investidores queira GANHAR DINHEIRO, FICAR RICO!

É claro que uma minoria deve querer perder dinheiro, pois há perfis humanos para tudo, desde sadomasô até fãs do Engenheiros do Hawaii…

Partindo desse pressuposto, vamos a algumas perguntas básicas:

  • P: Se a renda fixa está dando 20% acima da inflação (1995 a 2006), por que investiam em bolsa?
  • R: Por que esperavam ganhar ainda mais.
  • P: Você estaria mais propenso a investir em bolsa no Brasil de taxas de juros de 26,5% ao ano ou no Japão de taxas de 0,5% ao ano?
  • R: Em torno de 15% da indústria de fundos brasileira têm posição em ações, no Japão esse percentual beira 80% (fonte: Apresentação da Geração Futuro – Bento Gonçalves – Junho 2010).
  • P: Se levamos, em média, 12 anos para ter retorno do capital em renda fixa (P/L 12), em quantos anos seria razoável esperar esse mesmo retorno em bolsa?
  • R: Responda você mesmo!

Essa longa, longa, longa história, só para lembrar que o que importa é o CUSTO DE OPORTUNIDADE.

O custo de oportunidade

No Brasil da década de 1990 e início dos anos 2000, a taxa de juros era tão alta, que era possível comprar companhias excelentes com P/Ls 50% menores do que os de hoje (de 5 a 8).

Essa realidade mudou com a queda de juros e, também, com as perspectivas econômicas para o país. Além do CUSTO DE OPORTUNIDADE (renda fixa) ter ficado menos interessante, ainda se espera crescimento vigoroso de algumas companhias brasileiras.

Isso tende a fazer o P/L… subir!

Nos EUA um título de 10 anos do tesouro ou um título de dívida de empresa AAA chega a remunerar o investidor entre 4% e 5,5% ao ano (P/L entre 18 e 25).

Pergunte-se: isso tem a ver com o fato dos P/Ls por lá serem historicamente (e na média) maiores do que os brasileiros?

Responda você mesmo!

Se a renda fixa (RF) dá retorno em 12 anos, a bolsa deve ter P/Ls mais altos ou mais baixos que esse?

Ora, ora, ora… Mais uma pergunta difícil de acertar, mas fácil de entender.

Em tese, espera-se que a RF mantenha-se OU decresça (para o bem do país). O estímulo de crescimento de juros atual é pontual.

Se a idéia é de que, no longo prazo, espera-se uma RF menos atraente (P/L maior, juros menores), não é absurdo pagar um P/L maior que 12 por uma empresa que tenha perspectivas e crescimento elevado.

Não é absurdo, mas para os fundamentalistas baseados em valor, bom mesmo é comprar na “bacia das almas”. Já até vejo aquele investidor de Randon sonhando com os tempos de P/L 6 durante a crise…

Para que correr o risco?

Um dos problemas dos IPO´s de 2007 e 2008 foi a entrada em bolsa com múltiplos elevadíssimos.

Não que os investidores buy and hold tenham perdido dinheiro em todas, mas só ganharam naquelas em que as promessas de crescimento rápido do lucro se verificaram.

Mas não é tão bonito ver o lucro da companhia subir 600% em 3 anos e a ação subir 35%…

Parta do princípio que você não sabe e não saberá o futuro. Sei que para alguns investidores será um choque admitir que não sabe o futuro, mas façam uma forcinha…

Se não sabe, e a empresa está abrindo capital a P/L 50, que tal considerar que, em 4 ou 5 anos, esse múltiplo tenda para a média do mercado?

Não se preocupe com o P/L certo, ou com acertar o valuation, isso é função de profissionais, você deve apenas entender os conceitos e proteger o seu dinheiro de otimismos exagerados.

Radicalizando (com base no custo de oportunidade)

Veja a tabela abaixo:

Pela tabela acima, a opção mais comum à renda variável, que é a RF, teria, hoje, P/L 11,76.

Veja agora o histórico de P/L para várias empresas brasileiras (clique na tabela abaixo). São dados HISTÓRICOS, representando exatamente os P/Ls da época. São baseados em dois sites, a TIB (exclusiva para investidores associados ao INI) e o www.comdinheiro.com.br.

Há bastante coerência nos máximos e mínimos, com médias um pouco menores para empresas de elevado Dividend Yield (elétricas e POMO).

Para mais artigos sobre a relação entre a taxa de juros e o P/L, sugiro a leitura dos episódios 11, 12, 13, 22 e 23 do livro “O Mercado de Ações em 25 Episódios“.

Como não sabemos o futuro…

… é melhor posicionarmo-nos com base no bom senso e na lógica financeira.

A Exuberância Irracional já destruiu portfolios pontocom em 2001 e portfolios imobiliários em 2008/2009. Xô!

Humilde sugestão de bom senso e de lógica financeira:

Sendo conservador…

  • Tome o P/L da renda fixa como ponto máximo dos P/Ls da bolsa.

Sendo moderado…

  • Tome o P/L da renda fixa como ponto médio dos P/Ls da bolsa. Aceite que o P/L oscile, no ano, entre 25 e 35% para cima e para baixo da média.

Sendo agressivo…

  • Não seja agressivo! Você já está, provavelmente, comprando um P/L alto no IPO.

Essa sugestão quer dizer que um investidor conservador deve considerar que a sua ação comprada no IPO, tenderá nos próximos 5 anos a ter um P/L semelhante ao da renda fixa.

Já um investidor moderado, considerará que a empresa tenderá a um P/L máximo 25%-35% superior ao da renda fixa.

Isso está certo?

Quem vive de certo e errado é concurso público.

No mundo dos investimentos o objetivo é posicionar-se de acordo com uma estratégia própria e com premissas que você entenda. É a única maneira de fazer investimentos conscientes.

Se você comprar a ação a P/L 50, e em cinco anos o lucro quintuplicar e o P/L ainda aumentar para 100, ganhará 10 vezes o que investiu. Mas isso é absurdamente improvável.

Por que investir no absurdamente improvável?

Para quem quer insistir, tenho uma dica quente: 02-12-33-34-51-52.

Cenas dos próximos capítulos: a terceira parte…

Será a hora de olhar o prospecto e extrair as informações fundamentalistas necessárias para o balizamento de P/L acima.

Não é possível avaliar empresas que não existem, que não tem operação, mas tratarei delas também na terceira parte.

Até lá!

Ps. se alguém ganhar na mega-sena com os números acima, fineza depositar 10% na conta desse blogueiro…

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6 Respostas to “O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 2”

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Portinho,

Esses P/Ls da tabela são P/Ls “médios” considerando as ações ONs e PNs certo?

Pergunto isso pois tava olhando para a GETI3 por exemplo, e vejo que seu P/L atual já está bem acima da sua média, porém ela é uma ótima pagadora de DY. Seria mais prudente se desfazer delas, ou sendo ela boa pagadora de DY, mantemos em carteira?

Abrs

Oi Fabiano.
As médias podem subir, se a conjuntura melhorar.
Pense nas possibilidades de crescimento futuro. Se acredita que a empresa deve crescer o suficiente, não tem por que vender.

Caro Portinho, me parece que vc vai me convencer mesmo, conforme minha idade vai passando, eu estou indo para o lado fundamentalista
Abraços

Muito bom, Portinho!

Obrigado Fábio.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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