O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 1

Posted on 24/01/2011. Filed under: Finanças |

Avaliando IPO´s – Parte I – Empresas “caras” e “baratas”

Para os mais familiarizados com o Método INI pode parecer uma “blasfêmia” utilizá-lo para avaliar um IPO (oferta inicial de ações).

Isso porque os criadores do Stock Selection Guide só admitem avaliar companhias com, no mínimo, 5 anos de história na bolsa.

E isso faz todo o sentido, pois é muito comum que empresas iniciantes na bolsa abram seus negócios com múltiplos muito desfavoráveis (P/L, P/VPA, DY etc.).

Ao nem permitir que essas empresas “rodem” no Método INI, o investidor ficaria protegido de eventuais ajustes bruscos, caso o crescimento prometido por essas empresas não se verifique.

Mais adiante será mostrada uma tabela que mostra o efeito desses ajustes de múltiplos.

Em resumo: O Mercado costuma pagar caro, pois espera grande crescimento. Se esse crescimento não vem, ou vem mais modesto, o preço tende a se ajustar para baixo, até que os múltiplos estejam próximos à média dos mercados e/ou dos setores.

Apesar de não poder ser utilizado diretamente, o Método traz princípios fundamentalistas que podem ajudar muito na hora de decidir a viabilidade de um IPO.

ATENÇÃO!!! Tudo o que será tratado por aqui não vale pare decidir operações de curtíssimo prazo, flipping etc.

O que são empresas “caras” e empresas “baratas”?

Essa é daquelas perguntas que não têm resposta própria, pois depende dos objetivos do investidor. Para quem quer fazer day-trade talvez não faça diferença pagar um P/L 150 na B2W por exemplo, mas para quem quer mantê-la por 10 anos, pode ser perigoso comprá-la a um múltiplo tão elevado.

Professores do gabarito de Damodaran, Jeremy Siegel e Robert Shiller oferecem farto material apoiando a idéia de que, no médio/longo prazo, o P/L tende a retornar às suas médias históricas.

Para mais sobre o estudo de Robert Shiller e Jeremy Siegel sobre o ajuste de P/L clique aqui. O artigo do link é um dos mais importantes para reduzir os riscos do uso de métodos fundamentalistas.

Veja a tabela abaixo:

O setor bancário, com muitas décadas de bolsa, apresenta P/Ls bem comportados, dentro da média de Renda fixa.

Esse mesmo perfil pode ser encontrado em setores maduros, com muitos anos de listagem em bolsa como Mineração, Petróleo, Siderurgia, Energia Elétrica etc.

As ações do setor imobiliário entraram na bolsa com P/Ls absurdamente altos, alguns superiores a 40, como Gafisa, Cyrela e EZTEC. Em menos de 5 anos ajustaram-se para a média de mercado.

É razoável esperar P/Ls comportados em setores sobre os quais os analistas tenham mais domínio, consigam fazer projeções mais apuradas.

Primeira lição: P/L alto é aceitável no presente, improvável no futuro!

É claro que essa lição não é uma verdade absoluta, mas é o caminho da prudência. E ainda compartilhado por centenas de pesquisas sérias feitas pelos melhores professores de finanças do mundo.

Alguns exemplos já foram citados acima e o livro Mitos de Investimento, já tratado no blog, oferece outras tantas pesquisas sobre o assunto.

Veja o ocorrido com os IPO´s de algumas empresas do setor imobiliário:

Independente das empresas terem apresentado um crescimento espetacular, que foi o caso para muitas delas, o P/L acabou se ajustando bruscamente.

A EZTEC chegou a valer R$ 1,3 bilhão, com lucro (2006) de R$ 6,74 milhões. Só há poucos meses a empresa superou o preço de abertura no IPO.

Mas há quem discorde…

Sim. Como há exemplos de empresas que se mantêm com P/Ls elevados por muito tempo (LAME e PCAR, por exemplo), há investidores que não acreditam que esse múltiplo tenda, no longo prazo, a se ajustar.

Veja os P/Ls para o comércio varejista brasileiro:

São evidentemente muito mais altos do que os verificados em outros setores da economia, como os já citados.

Por quê?

A justificativa da literatura é simples: espera-se crescimento muito alto dessas companhias.

Há questões de fluxo de caixa e de compra de controle que requerem um ferramental teórico mais profundo, que não nos interessa por aqui.

Sugiro a leitura do post onde há uma análise da LAME feita pelo pessoal do BB. Eles esperam um crescimento de 250% no lucro em 3-4 anos. Enquanto que para siderurgia e bens de capital essa expectativa cai para 50% a 75%.

E os varejistas no mundo (fonte: google finance)?

P/Ls muito mais modestos. Pode ser que, em países desenvolvidos, esse setor seja considerado maduro, com perspectivas reduzidas de crescimento.

Mas por que pagar um P/L 4 vezes superior ao do Wal-Mart pelas lojas Americanas?

Bom, a explicação do “livro” já está escrita acima.

No próximo post O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 2, trato de parâmetros razoáveis para os múltiplos fundamentalistas.

Por enquanto, reforço a principal mensagem dessa primeira parte:

P/L alto é risco, pois baseia-se, normalmente, em premissas de crescimento das receitas e dos lucros, em patamares muito acima do mercado.

É aceitável aceitar esse risco HOJE, no IPO de AGORA, mas faça-o esperando que o P/L vai acabar se ajustando e que, para que não perca dinheiro, os lucros terão que crescer muito para compensar o ajuste natural dos múltiplos!

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4 Respostas to “O Método INI para Avaliação de IPO´s – Parte 1”

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Excelente artigo e parabéns pelo blog.

Caro Gabriel,
Agradeço a visita.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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