A importância dos ratings e o preço das ações

Posted on 18/01/2011. Filed under: Finanças |

O rating (AAA, BBB etc.) é uma medida de risco de crédito

Apesar dos episódios que evidenciaram a incrível imprecisão dos ratings concedidos pelas principais agências (Fitch, S&P e Moody´s), essa medida de risco de crédito ainda é praticamente a única reconhecida amplamente pelo mercado.

E, mesmo com todos os erros, assim continuará sendo, pois esses ratings são base para precificação de inúmeros contratos financeiros e não há, no horizonte visível, qualquer medida que possa suplantá-los em termos de ramificações e de confiabilidade.

Apesar do Investment Grade AAA da Islândia ter sido revisto somente quando o país quebrou… É mais ou menos como avisar HOJE, que o Flamengo não será campeão do Brasileirão 2010…

Os primórdios do mercado de ações…

Poucos sabem, mas houve uma época, antes de 1980, que o mercado de ações norte-americano era pautado pelo dividend yield. As pessoas compravam empresas que pudessem pagar um DY superior ao retorno oferecido por um título de dívida com rating AAA.

Depois, principalmente depois da administração Reagan, gradualmente o investidor migrou para a visão do TSR (Total Shareholder Return), onde o DY e a valorização do ativo são contados para o cálculo do retorno do acionista.

Pois esse título de dívida AAA pode ser entendido como aquele emitido por uma entidade que tem ENORME PROBABILIDADE de pagar suas contas em dia.

É evidente que, um título de uma empresa ultra-sólida (como o Lehman Bros… brincadeirinha com fundo de verdade) vai pagar uma taxa mais baixa do que um título CCC ou similar, pois a probabilidade deste último falhar um pagamento é maior, na visão das agências de rating.

Se uma empresa rated AAA emitir um título de dívida, uma debênture ou similar, vai pagar ao comprador, em tese, a menor taxa de juros do mercado, por conta do seu risco baixo.

Era como funcionava o mercado norte-americano.

Se, por hipótese, a General Electric, em 1969, precisasse pagar 4,6% ao ano para tomar dinheiro no mercado (por ser AAA), um investidor iria procurar uma ação que tivesse, no mínimo, essa expectativa de retorno com dividendos.

Investment grade

A partir de um determinado rating (ver aqui), a empresa (ou país) é considerada Investment Grade, uma espécie de “não caloteiro oficial”.

Isso faz com que algumas situações se modifiquem:

  • Os custos para captação de dinheiro via empréstimos, debêntures etc., caem
  • Alguns fundos conservadores, que só podem investir em “não caloteiros oficiais”, colocam a empresa ou os títulos do país na mira

Isso foi um pouco do que aconteceu com o Brasil ao receber o Grau de Investimento.

É importante ficar claro que a medida do risco de crédito não leva somente em consideração as condições financeiras atuais de um país ou de uma empresa, mas seu histórico de governança. E no exterior, histórico de governança significa 30, 40 anos de confiança e respeito a contratos, por isso nossa moratória “Sarneyzista” ainda cobra seu preço.

Poderíamos ter obtido o investment grade há mais tempo. Mas aquela história de calote na dívida externa sempre rendeu muitos votos… O inimigo externo… As perdas internacionais…

Ai,ai…

Para as empresas (Valuation)

No episódios “De onde vem o preço das empresas listada em bolsa – Introdução ao Valuation“, do livro 25 episódios, ficou claríssimo que, caso haja redução no risco (menor taxa de desconto), o preço da ação tende a subir.

Isso aconteceu com o Mercado de Ações brasileiro como um todo, ao receber o grau de investimento. E acontece também com companhias abertas.

Ao melhorar seu rating, as empresas podem captar, se financiar e se alavancar a custos menores. Isso tem impacto direto no valuation, pois deve modificar, normalmente, a taxa de desconto do fluxo de caixa futuro, além de permitir elevação nas margens, pela queda nos custos financeiros.

Dessa forma, faz parte do “jogo” pagar um pouco mais por empresas que têm custo mais baixo de crédito. Por isso, ao menos num primeiro momento, acabam subindo.

Não é tão simples

É claro que a matemática desse cálculo não é tão simples, ao contrário, é bem chata. Mas o conceito é basicamente esse: Se a empresa melhora seu rating, seu custo de captação cai e seu risco é considerado menor.

Esses dois pontos impactam no preço da ação diretamente, seja pela redução da taxa de desconto do fluxo de caixa futuro (discounted cash flow), seja pela redução do custo necessário para financiar o negócio.

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5 Respostas to “A importância dos ratings e o preço das ações”

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Portinho, bom dia.
Pelo que lembro do livro do Graham os IPOs, na média, sao bons para as empresas e de modo geral arriscados demais para os investidores, e a gente nota que muitas abrem capital em fases rotuladas de ”alta”, com preços caros (uma clara desvantagem evidenciada por Graham e pelo metodo INI).
”Mas como sou teimoso” a Arezzo chamou minha atenção em seu prospecto (taxa composta anual de crescimento de receita liquida, só que dos ultimos 3 anos, de 45,8%).
AAAAFFFFFFFF!!!!!
Voce pode comentar um pouco sobre os IPOs de modo geral no cenario brasileiro e as diferenças com o americano, se é que existem?
Atenciosamente,
Aroldo

Oi Aroldo,
Estou trabalhando em alguns posts para responder a você e outras pessoas que têm dúvidas sobre IPO´s. O primeiro já está lá.

Mais uma vez muito obrigado.
O seu blog ta muito bom pra quem queira estudar e tenha visao de longo prazo. A gente le por ai muita gente que posa de magico,mas sem a veia educativa.
Aceitei melhor ainda ser fundamentalista depois de ler Alexander Elder (“Come into my trading room”), aquele psiquiatra sovietico que saltou do navio pra fugir da URSS e tornou-se um famoso trader. Os comentarios sao muito sabios, ao contrario da tchurma que ensina tradar no pais em sua maioria. Ele mesmo diz que analise grafica bem sucedida (com medidas de performance ao longo de anos, do resultado liquido) ‘e pra pouquissimos. Dentre outras coisas o sujeito precisa ter muito capital e tempo demais pra comecar a ter sucesso e se dar ao luxo de poder perder.
Quem gosta de show de magica vai ao espetaculo pra ser enganado e aplaude.
Confio mais em educacao.
Atenciosamente,
Aroldo

Oi Aroldo,
Vou trabalhar nesses dois dias para mostrar o Método INI aplicado à Arezzo. Só não farei considerações sobre o futuro, deixarei para o leitor preencher a planilha.
Abraço,
Portinho


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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