Ataques à Análise Fundamentalista

Posted on 13/01/2011. Filed under: Finanças |

Caros leitores,

Tenho recebido alguns e-mails indicando blogs e sites de grafistas que buscam denegrir a análise fundamentalista ou a estratégia buy and hold. Não direi os nomes, mas postarei os links indicados.

Como deve ter ficado claro no post Análise Técnica (AT) X Análise Fundamentalista (AF) – Água e Óleo, tenho respeito por quem usa gráficos, apenas acho que as abordagens (AT e AF) são irreconciliáveis, jamais se poderá entender os motivos de uma, a partir dos conceitos de outra.

Mas devo defender os fundamentalistas e os usuários do buy-and-hold, pois as críticas são imprecisas.

Bolsa de Tóquio -1989

Esse é a predileta de quem quer convencer o investidor a ser um trader. O Índice Nikkei 225 atingiu, em dezembro de 1989, seu pico histórico aos 38.916 pontos. Hoje, 22 anos depois, está em 10.500 pontos.

É algo assustador, principalmente para quem tem pouco conhecimento de bolsa, economia, finanças etc., os mais propensos a aderir aos gráficos.

No livro “O Mercado de Ações em 25 Episódios” discuto o tema no episódio “A Bolsa que Nunca se Recuperou – Tóquio 1989“, mostrando o histórico da formação da bolha imobiliária e fazendo um paralelo com o que NÃO ESTÁ acontecendo com a China. Além de mostrar uma quantidade absurda de evidências dessa bolha, totalmente negligenciadas pelos investidores.

A mais absurda dessas evidências, em termos fundamentalistas, era o índice P/L MÉDIO da Bolsa japonesa, 70,6x.

Qualquer investidor minimamente instruído sabe que esse índice está, pelo menos, 3 vezes acima do máximo aceitável e 4,5 vezes acima da média de mercados como o Norte-Americano, o Europeu e outros desenvolvidos.

Sem me estender muito sobre a origem da bolha, vale relatar um fato: Em fevereiro de 1985, 100.000 ienes compravam US$ 386,10. Ao sucumbir às pressões para valorizar sua moeda (o que a China de hoje evita ferozmente) em apenas 1,5 ano, em setembro de 1986, 100.000 ienes compravam US$ 653,59, 69% mais.

Resultado, não tinha japonês pobre no mundo!

As lições do crash japonês, ao contrário do que os grafistas sugerem, são mais eloquentes para os traders do que para os fundamentalistas, que tinham inúmeros indicadores de bolha à mão.

Um trader de mercado futuro de índice (Japonês e de Cingapura), Nick Leeson, quebrou o Barings, secular banco inglês que tinha até a Rainha como cliente. Fazendo o quê? Ora, trade!

Bom, para encerrar a parte da Bolsa de Tóquio, vale retomar a paródia da sua mulher (ou seu marido) chegando em casa de Jaguar XJ12 0Km, carro de R$ 300.000.

Você deve escolher que tipo de marido (esposa) é você:

  1. Do tipo que pede explicações convincentes, sob pena de pedir o divórcio.
  2. Do tipo que pede explicações, se convence com qualquer coisa e, em uma semana, já está pedindo a chave do carro para dar uma voltinha.
  3. Do tipo que já pede logo a chave sai para curtir o carro.

Com investimento é a mesma coisa. Está ganhando muito dinheiro? É bom saber por quê. Caso contrário, alguém pode tomar o Jaguar de volta e ainda pendurar uma conta de honorários atrasados em sua porta.

Os japoneses estavam no terceiro tipo.

Uma secretária japonesa disputava a compra de uma casa de veraneio no Havaí com um empresário abastado americano, e achava normal. O valor do terreno do palácio imperial valia mais que os imóveis do Estado da Califórnia, e era tudo normal.

E o Jaguar virou Toyota, quer dizer, abóbora…

Quem comprou em 1929 nunca recuperou o dinheiro!

Essa é de ontem, de um site badaladíssimo de AT. Não vou comentar o que o site disse, mas a reportagem original do New York Times (ver aqui).

O pesquisador montou um gráfico interessantíssimo para mostrar o retorno do investimento de quem entrou na bolsa em um determinado ponto, a partir de 1920, e saiu em um ponto futuro, até 2009. São milhares de combinações e os resultados são mostrados em cores.

Tudo ajustado para a inflação, dividendos e as taxas. Ajustar a dividendos, não é a mesma coisa que reinvesti-los, que fique claro.

O gráfico mostra que a maioria dos retornos (acima da inflação) fica situada entre 3% e 7% ao ano, bem menos que a expectativa dos Americanos, que é de mais de 10% ao ano.

Isso foi usado para denegrir o buy-and-hold.

Mas é uma analogia imprecisa, pois o REAL investidor buy-and-hold não faz, em absoluto, o que o gráfico sugere.

Aliás, a filosofia de colocar muito dinheiro de uma só vez na bolsa e retirá-lo todo, no futuro, também de uma só vez é muito mais aderente ao comportamento de traders do que de investidores de longo prazo.

O que faz (ou deveria fazer) o investidor buy-and-hold ATIVO e REAL:

  1. Compra pouco e sempre. Quem coloca muito dinheiro de uma só vez está apostando que vai acertar a hora de entrar.
  2. Reinveste todos os seus ganhos, tanto os ganhos de capital quanto os ganhos com proventos.
  3. Acompanha, no mínimo, trimestralmente os relatórios de resultados de suas empresas, permanecendo naquelas que mantêm potencial de crescimento (usando o método INI-NAIC, por exemplo).
  4. Diversifica seu portfolio. Ações são apenas uma parte de seus investimentos.

Esse personagem inerte que coloca todo o dinheiro num dia e volta 20 anos para ver como está não existe na vida real.

Talvez alguns brasileiros que entraram nos planos de expansão de telefonia, nos fundos 157 e outras formas “tortas” de investir em ações façam isso, mas não são investidores, são vítimas de subsídios governamentais inadequados.

O Investidor Decide

Para encerrar essa “defesa” da AF, afirmo categoricamente: não acredite nos outros, acredite em você.

Não há estratégia mais perdedora do que seguir uma filosofia de investimento que você não entende, seguir um caminho que você não vê.

Para fazer isso, é menos arriscado investir em fundos mútuos. Operar sem entender o que está acontecendo é dirigir no escuro com os faróis apagados.

Como escrito no post sobre AT x AF, a motivação para investimento em bolsa parte da crença de que se pode ganhar dinheiro, seja no longo ou no curto prazo.

Independente de sua escolha (trader ou buy-and-hold), eduque a sua crença, para que não acredite em qualquer exorcismo ou despacho financeiro que encontrar pelo caminho.

Ps. Talvez não tenha ficado claro com o texto, mas reitero meu respeito por usuários de gráficos, traders, day-traders etc.. O objetivo do texto não foi denegrir essa filosofia de investimento, mas “proteger” investidores menos experientes de conclusões imprecisas sobre os fatos que relatei (Tóquio e NY Times).

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5 Respostas to “Ataques à Análise Fundamentalista”

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[…] Ataques à Análise Fundamentalista […]

Respeito os traders como respeito qualquer agente de mercado. Precisamos de tudo, “cleaners”, “intelectuais gramscistas”, “hienas de plantão” e é claro, “trouxas”.

Fico com minha opinião anterior. Excelente artigo seu o anterior sobre o assunto.

Oi Silvio,
Por falar em intelectuais gramscistas, tem um post antigo no meu blog bem interessante, com o livro do General Coutinho. Abraço!

Portinho, me cadastrei em seu blog domingo passado(09/1/2011) e de lá pra cá leio todas as postagens novas, pois já li as antigas. Eu particularmente sou fundamentalista. Respeito todos os metodos, mas acho que é questão de se adequar ao metodo. Se recuperar na bolsa, sabemos que a grande maioria(prinicipalmente os pequenos investidores ou os de primeira viagem) jamais se recuperaram do prejuizo cessante.

Parabéns pelo seu blog e pode me considerar umfã seu.

Abraços

Obrigado Rodney,

Abraço e seja bem vindo!
Paulo Portinho


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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