Análise Técnica X Análise Fundamentalista – Água e Óleo

Posted on 10/01/2011. Filed under: Finanças |

No começo do ano recebi de um nobre cearense, leitor do blog, um link com previsões dos principais analistas técnicos para a próxima década.

Isso mesmo: década (2011-2020).

Com o mesmo conjunto de técnicas, os analistas fazem previsões para 10 segundos e para 10 anos.

Sensacional!

Mas o objetivo do post não é “maltratar” os grafistas nem “enaltecer” fundamentalistas, mas dar um relato do que aprendi nesses últimos 8 anos e mais de 5.000 horas de palestras e cursos em 17 estados brasileiros, a respeito desse tema.

A Análise Técnica é um sucesso porque faz parte da natureza humana

Alguns vão ao fundo do poço, como o matemático John Nash que conseguia ver mensagens de guerra codificadas em simples jornais provincianos, mas faz parte da construção do conhecimento de todos nós, reconhecer padrões nos fenômenos naturais e intelectuais.

Basta fazer uma prova de Q.I. para ver que o mundo ocidental considera “gênio” aquele que consegue identificar mais padrões entre esferas, triângulos, números, figuras etc.

É o que a análise técnica faz, simplificando a história. Procura identificar padrões nas variáveis quantificáveis e “desenháveis” das operações em bolsa.

É natural que atraia tantas pessoas e que as leve a acreditar na capacidade de prever o futuro com base em padrões que se repetiram no passado.

Qualquer pessoa que teve educação formal em escolas cartesianas tem forte tendência a procurar padrões. Esse é o modelo de “inteligência funcional” no nosso mundo.

Mas isso não garante a “ciência” da Análise Técnica (AT)

Nesse ponto devo confessar minha ignorância, pois desconheço trabalhos científicos, baseados em métodos que qualquer pesquisador poderia comprovar, sobre Análise Técnica.

Sei que eles existem, mas não chegam tão abundantemente às nossas mãos como aqueles desenvolvidos com base em análise fundamentalista (AF). Qualquer livro do prof. Damodaran prova o que digo, em especial o “Mitos de Investimento” (vou postar uma resenha que escrevi sobre o livro).

Já li alguns artigos (papers) em inglês sobre AT, mas, ou os objetivos eram insignificantes, ou o pesquisador se perdia na tautologia.

Tautologia é a arte de descobrir o que já está descoberto, ou a arte de profetizar sobre o passado.

Tenho certeza que os leitores do blog indicarão, nos comentários, alguns artigos para que eu possa continuar minha peregrinação em busca da ciência da AT.

O que aprendi em 5.000 horas de palestras e cursos?

1. It´s not a matter of fact, it´s a matter of belief

Nada mais inútil do que tentar convencer um grafista ao fundamento, ou vice-versa. Não há ciência para convencer, mas também não há para desmentir, o que nos deixa na dimensão da fé.

Frases que ouvi ao longo dos anos:

– “Poxa, com meus trades ganhei mais de 60% com a VALE nesse ano”, respondi – “Foi muito bom, mas a VALE subiu quase 100% em 2007…”
– “Tenho conseguido 7% ao mês em meus investimentos, há mais de 2 anos!”, respondi – “…”, não respondi nada.

E tantas outras histórias de sucesso. Quase nenhuma de fracasso…

Por isso é importante respeitar a frase em inglês, do subtítulo acima: é uma questão de crença.

Não faz qualquer sentido tentar demover uma crença de uma pessoa.

É mais fácil tentar incutir OUTRA crença tão forte nos valores dela, para que, caso sejam antagônicas, vença a melhor para a vida daquele indivíduo.

Essa lição foi muito importante. Fez com que mantivesse milhares de investidores atentos ao Método INI, mesmo sendo grafistas convictos.

2. AT e AF não se misturam. Não fazem parte da mesma categoria de pensamento.

Há uma frase no mercado que tem sido recebida como “verdade absoluta”: – Uso a análise fundamentalista para escolher o ativo, e a análise gráfica para saber a hora de entrar.

Creio que 10 entre 10 investidores consideram que isso seria “o melhor de dois mundos”.

Humildemente discordo.

Há 3 anos, assisti uma palestra do Didi (o da agulhada, não o Mocó). Entre um palavrão cabeludo e outro entendi duas coisas: 1- Não importa o ativo, o que importa é o sinal gráfico, 2- Analista técnico tem que ter atitude, decisão. O covarde e o titubeante só perdem.

Não dá para provar o que ele disse, mas faz todo o sentido. Pela própria natureza da AT, parece absurdamente plausível que os ativos que interessam para grandes trades não tenham qualquer relação com seus fundamentos.

Lembro da Ecodiesel movimentar em 1 pregão, quase todo seu valor de mercado. Seria como se a VALE movimentasse uns R$ 200 bilhões em um dia.

Não foi por conta dos belos olhos azuis da ECO. Ah… e nem pelo balanço… Boato? Bom, boato não é fundamento. E dá-lhe AT!

Conheço investidores que têm Petrobras a custo médio de R$ 4,00 na carteira. Não sei se, na estratégia deles, teria valido o sacrifício de tentar “acertar” o preço na hora de comprar.

Estão ricos e estariam ricos mesmo que tivessem comprado por 10% mais. Talvez não estivessem ricos se tivessem vendido a R$ 4,40…

Em resumo:

– Os melhores ativos para trade não são, necessariamente, aqueles de melhor fundamento.
– Os melhores ativos para buy-and-hold não precisam da AT para fazer do investidor uma pessoa rica. Precisam de tempo, disciplina, aportes regulares, muito estudo de balanço e DRE etc..

AT e AF são abordagens válidas, mas é melhor para o investidor que tente ser “fera” naquela que escolheu. Se misturar, vai parecer uma loja da Victor Hugo tentando competir com a C&A no preço das bolsas.

Michael Porter já ensinava que o sucesso depende do foco na estratégia escolhida. No caso dele era preço x diferenciação. Na bolsa é AT x AF.

3. Quem destina mais de 4 horas por dia à bolsa é profissional

Nos últimos anos, em todo o mundo, proliferou a profissão de “trader”. Seria alguém que busca remunerar seu próprio patrimônio com acertos em seus trades.

Algumas pessoas fazem isso com financiamento de carteira através de opções, o que não é necessariamente trade, mas também tem suas peculiaridades.

Para o trader ou day-trader, segundos são importantíssimos. A oportunidade pode vir a qualquer hora, ele precisa de atenção à tela e às ferramentas que a corretora disponibiliza.

Em 2007-2008 ouvi muita gente dizer que ganhava mais dinheiro com os trades na bolsa do que com o próprio salário.

Pois bem, para essas pessoas e para outras que também dedicam um tempo relevante de seus dias para a bolsa, tenham em mente o seguinte:

– Vocês são profissionais de bolsa.

Não tem registro na CVM, pois não é preciso para gerir seu próprio patrimônio, mas você despende, às vezes, mais tempo para a bolsa do que para sua profissão de origem.

Isso tem custo. Tem custo de oportunidade, de depreciação e de obsolescência.

A comparação, falando apenas em termos econômicos, não deve simplesmente levar em conta aqueles momentos de bons trades e o salário do seu emprego.

Tenha em mente os seguintes custos:

Desinvestimento – Ao dedicar 4 horas ou mais para a bolsa, você pode estar colocando “a prejuízo” um investimento de centenas de milhares de reais, de 10 ou mais anos, que levaram você a ser médico, dentista, engenheiro, publicitário etc.

Limitação de carreira – Ao dedicar 4 horas ou mais para a bolsa, você tende a restringir as perspectivas de sua carreira na profissão de origem.

Acredite, dificilmente um trader, com dinheiro próprio, será mais bem sucedido que um médico gabaritado, que um cirurgião plástico de nível ou que um engenheiro de petróleo de uma multinacional.

As histórias de traders milionários, normalmente estão associadas à gestão do dinheiro de terceiros, não do próprio patrimônio. Não se iluda.

A ópera, em resumo!

O INI lançou há 5 anos seu Slogan “Formando Investidores Conscientes”. O leitor já deve ter percebido que a frase “deu cria”, pela quantidade de sites (até alguns institucionais) usando derivações e licenças poéticas do Slogan do INI.

Pois não há nada mais atual do que buscar ser um investidor consciente.

Isso não significa, em absoluto, usar AF em vez de AT, mas saber o que está fazendo, o que esperar de suas escolhas e quais os riscos, de forma AMPLA, em que está se envolvendo.

Infelizmente os riscos ou são vistos de forma estreita, sem levar em consideração os impactos em outras áreas de vida do investidor, ou são negligenciados.

Gente, eu sei que é chato falar dessas coisas, mas alguém precisa fazê-lo, não é mesmo?

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12 Respostas to “Análise Técnica X Análise Fundamentalista – Água e Óleo”

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[…] O ponto importante, aqui, é definir que tipo de perfil é compatível com seus ob…, mas não tem tempo disponível para acompanhar o mercado de ações, é arriscado. Se você quer ser um investidor, mas quer resultados de curto prazo, nem invente de tentar – análise fundamentalista nem sempre funciona no curto prazo. […]

[…] O ponto importante, aqui, é definir que tipo de perfil é compatível com seus objetivos e com sua …, mas não tem tempo disponível para acompanhar o mercado de ações, é arriscado. Se você quer ser um investidor, mas quer resultados de curto prazo, nem invente de tentar – análise fundamentalista nem sempre funciona no curto prazo. […]

[…] Análise Técnica X Análise Fundamentalista Água e Óleo […]

[…] deve ter ficado claro no post Análise Técnica (AT) X Análise Fundamentalista (AF) – Água e Óleo, tenho respeito por quem usa gráficos, apenas acho que as abordagens (AT e AF) são […]

[…] colocado no post de ontem (Análise Técnica x Análise Fundamentalista – Água e Óleo), os livros do Professor Aswath Damodaran são verdadeiros tratados científicos sobre investimento […]

sua colocação é provavelmente a melhor que eu li ate agora quando se trata de comparar AT e AF ou investidor e trader.Sou Dtrader e queria lhe fazer uma observação : Ser Dtrader é uma profissão como qualquer outra …digo profissão , não hobby .E quando se trata de profissão é raramente para ficar rico de um dia para outro.Para ser Dtrader , não vejo como ter sucesso sem passar as 8 horas do dia ou talvez mais na frente de um micro…portanto dividir esta profissão com outra , com certeza uma das duas va sair prejudicada .Mas nem forçosamente a outra .Quantos engenheiros , medicos , publicitarios , após ter despendidos um bom dinheiro para se formar , tem um emprego que mal lhe permite de viver decentemente ? …e quem esta empregado , não tem tempo para cuidar de suas economias , então aplica seu dinheiro suado , baseado em palpite de fulano ou sicrano…ou seja , ser trader com seus próprios recursos pode dar uma receita mensal maior que um emprego…e da tempo para analisar tranquilamente onde aplicar eficientemente o dinheiro economizado ….enfim , ficar empregado além dos 50 anos fica cada dia mais dificile para quem trabalha em empresa privada e esta atividade pode dar uma segunda profissão a quem deixa a sua primeira atividade e não quer se aposentar tão cedo….Ou seja ser trader pode ter razões muito validas ….

Oi Roger,
Agradeço as palavras amigas.
Foi isso mesmo que quis colocar. Como em qualquer profissão, para ser bom é preciso dedicação, estudo e experiência. Dificilmente será possível evoluir satisfatoriamente em duas profissões tão distintas (trader e médico, por exemplo).
Essa questão de ser cada vez mais difícil manter o emprego (ou a remuneração) nas empresas privadas a partir dos 50 anos pode ser um dos motivos que têm levado tantos investidores ao trade.
Desejo toda sorte do mundo nos trades e MUITA educação financeira em 2011.
Abraço
Portinho

Com todo respeito aos profissionais da área, e existem muitos bons, mas a questão é que o senso comum fica vidrado nas promessas da AT. Eu mesmo de vez em quando dou uma olhadinha nos gráficos. É muito mais sedutora a emoção e a adrenalina. O mercado fornecedor vende muito mais cursos e eventos. Os bancos e a corretoras aplaudem o giro que a AT lhes proporciona. Nada contra, faz parte das regras do jogo e é uma filosofia de operar legítima e atende aos anseios de muitos seguidores. Com relação à eficácia, fiquemos com as evidências.

Concordo integralmente.

É algo que tem muito apelo à natureza humana, tanto é que faz enorme sucesso.

O problema dos cursos de AF é que costumam não “instrumentalizar” o investidor para operar. É muita teoria.

O único curso (acessível) de AF que dá instrumentos práticos para seleção de ações é o do Método INI. Em seis horas o aluno recebe ferramentas bem simples que lhe permitem comparar ações de crescimento.

Os outros costumam ser longos e complexos, com muitos múltiplos e pouco processo decisório.

No caso da AT, todos os cursos são instrumentais, vão direto à operação.

[]
Paulo

Muito boa sua advertência. Infelizmente muito dinheiro será disperdiçado em crenças. Como evitar aqueles que acreditam em Horoscopo e similares?

Caro Silvio,
É sempre assim, desde os esquemas de pirâmide até apostas no jóquei.
Mas sempre há crença, mesmo quando se investe em poupança.
Por incrível que pareça as pessoas continuam dizendo que é o mais seguro, que o ganho é certo etc. Mas esquecem que o IGPM atingiu mais de 25% em 2002 e, recentemente, mais de 11%.
Isso significa PERDA DE DINHEIRO e, ao contrário da bolsa, irrecuperável.
[]
Portinho

Muito bom, Portinho!! Concordo plenamente!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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