Artigo sobre a hora certa de vender e de comprar ações

Posted on 14/12/2010. Filed under: Finanças |

Bom, antes de iniciar já alerto aos leitores que, ao final do artigo, não encontrarão resposta para “a hora certa de vender ou de comprar”.

O motivo do artigo é outro. Seu objetivo principal é testar algumas “verdades” que os pequenos investidores ouvem para convencê-los de que investimento em bolsa JAMAIS deve ser para longo prazo.

A bolsa de Tóquio

Os detratores do investimento com base fundamentalista, focado em formação de patrimônio de longo prazo, costumam argumentar que a filosofia buy-and-hold teria sido um fracasso no Japão nos últimos 20 anos.

E é algo que assusta o investidor de bolsa, pois o índice Nikkei chegou a cerca de 39.000 pontos em 1989 e hoje, 21 anos depois, está em pouco mais de 10.000 pontos.

Isso leva o investidor a crer que algo similar pode ocorrer no Brasil, nos EUA ou na Europa.

Poder até pode, mas nenhum desses mercados enfrenta situações tão atípicas como as que o Japão enfrentou na década de 1980.

Sem me estender demais, o P/L médio do mercado japonês era 70 (6 a 7 vezes maior do que o brasileiro em 2010), secretárias japonesas disputavam casas de praia no Havaí com empresários e executivos americanos, a área do palácio imperial valia mais do que toda a área do estado da Califórnia. E por aí vai.

Foram muitos fatores, alguns bem semelhantes aos que ocorreram com a China nos últimos anos (em menor escala).

Para quem quiser mais detalhes, sugiro a leitura dos apêndices do livro “O mercado de ações em 25 episódios” para um detalhamento da formação dessa bolha impressionante.

Quem ler vai começar a entender o pavor que a China tem de permitir a valorização de sua moeda. Esse foi um dos motivos da bolha japonesa.

O argumento mais recorrente: a profecia do passado

Quando alguém olha para o que aconteceu com a bolsa e diz: “- Se você tivesse vendido tudo em maio de 2008 e recomprado em novembro de 2008, teria um ganho de X%”, está profetizando sobre fatos passados.

Em 2008, apesar das evidências da crise, havia analistas indicando bolsa a 100.000 pontos no final do ano e VALE5 a R$ 100,00.

Mesmo que você tivesse vendido toda sua carteira com o Ibovespa a 72.000, quando entraria de novo? Recompraria a 66.000? Recompraria a 60.000?

Quando alguém lhe apresentar argumentos para trade, com base em profecias do passado, peça para que lhe dê um método objetivo para testar. Dizer que “sabe” a hora certa de comprar ou vender não é testável cientificamente.

Vender tudo aos 72.000 pontos e recomprar (ou vender) com quedas de 10%.

Isso dá para testar, pois é uma regra que não depende do talento ou da clarividência do operador.

Imagine um sujeito com R$ 1 milhão em bolsa que resolve vender tudo a 72.000 pontos. Isso significa que ele estaria inteiramente “líquido” quando a bolsa começou a desabar em 2008. Sortudo, não?

Pois a bolsa cai 10% e ele recompra. Terá, portanto, R$ 1 milhão na bolsa, com o índice a 64.800 pontos (10% menos). Isso significa que estará “comprado”.

Como a bolsa só caiu durante o período, ele resolveu seguir seu método e vendeu tudo, novamente, quando o índice atingiu 58.320 pontos (10% menos). Ele só teria R$ 900 mil agora, mas estaria completamente líquido.

Recompraria a 52.488, venderia a 47.239, recompraria a 42.515, venderia a 38.263, recompraria a 34.437 e venderia a 30.993, parando por aí, pois a bolsa não caiu 10% a partir desse patamar.

Para quem lê e não esteve na bolsa no período, parece uma grande estupidez, mas, no meio do furacão, ninguém sabe qual é o fundo do poço.

Aliás, muitos do que apostaram que o fundo do poço havia chegado, e jogaram a descoberto no mercado a termo, perderam muito, mas muito dinheiro.

Voltando…

Se ele fizer isso até os 30.993 (ponto mínimo do teste) e depois começar a recomprar e vender a cada 10% de alta, chegaria aos 72.000 pontos com EXATAMENTE R$ 1 milhão. Não adiantou nada. Os custos e o IR não estão contabilizados.

Alguns traders diriam que colocariam um stop loss curto e um stop gain longo, para aceitar perdas pequenas, mas permitir ganhos maiores.

Ficaria feliz de receber um artigo científico testando premissas como essa. Aos amigos leitores que tiverem condições de montar uma planilha com um método cientificamente “testável”, fica o convite para que a desenvolva, que eu publico por aqui.

Faça o seu trade, mas respeite os R$ 100 por mês

Ben Graham já ensinava, há 7 décadas, que o investidor não vai conseguir ficar fora da emoção do giro. Para esses, Ben Graham sugeriu a criação da “conta do dinheiro louco”, aquela em que todas as estripulias podem ser feitas (só cuidado com operações a descoberto e mercados futuros).

Reserve um dinheiro que pode perder, que não seja significativo em sua carteira, para girar. Mas respeite aquele patrimônio formado de tostão em tostão, por mais de uma década. Normalmente é ele que sobra na hora da aposentadoria.

O profissional de mercado

Tenha em mente outra dura verdade: se você gasta mais tempo operando sua carteira do que se desenvolvendo em sua profissão de origem (medicina, engenharia, direito etc.), você é um profissional de bolsa.

Sem os requisitos formais e os registros na CVM, pois opera somente para si, mas você dedica mais tempo, mais energia e mais estudo às operações de bolsa do que à profissão que lhe tomou 10, 20, 30 anos de formação.

10 anos de formação em medicina podem requerer, fácil, R$ 1 milhão em investimento. Não se esqueça que esse também é o seu custo de oportunidade.

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6 Respostas to “Artigo sobre a hora certa de vender e de comprar ações”

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Valeu Portinho, grato pelas colocações.

Vou tentar acompanhar a FJTA e a composição do fundo da GF de perto, mas nesses patamares pretendo fazer umas compras.

Abraço,

Portinho,

Vc acompanha a FJTA4 (Forja Taurus)? A empresa está em queda a mais de um ano, sendo que seus fundamentos continuam em alta, quase como um “relógio”. O P/L por exemplo, está próximo do mínimo dos últimos anos.

Ouvi algo a respeito da empresa ingressar no novo mercado, ou seja, notícia boa, e mesmo assim não reverte a queda.

Apesar do setor que está inserida, vejo como uma bela oportunidade para entrada.

Sabe de algo a respeito?

Abraço,
Fabiano

Nossa opção por forjas taurus foi baseada no crescimento das vendas e dos lucros e do P/L que saiu de mais de 20 para 7,5. Bem Buffett…
Há rumores (não confirmados) de que o controlador quer comprar todas as ON em poder dos outros familiares, para talvez pensar em ir ao novo mercado.
O que espero dela é competência no seu negócio, o que parece estar acontecendo. Se houver uma mudança de controle ou de governança PARA MELHOR, sempre é bem vinda.
Abraço!

Há um papo que já ouvi várias vezes de que a Geração Futuro estaria saindo da empresa. Pela composição do fundo no final do mês passado, ela ainda estava nas suas carteiras. Agora se realmente está vendendo não sei.

Com relação a essa troca de controle e possível ida ao novo mercado, qual seria mais segura para comprar, as PN ou ONs?

Abraço,

Oi Fabiano,
Desculpe a demora, mas tive que trabalhar no final de semana.
Eu tenho acompanhado os books da FJTA e o movimento de venda proveniente da GF parece MESMO muito grande. É só uma observação empírica, pode ser apenas impressão errada.
Agora, a GF está mesmo com o fundo desbalanceado, pois não faz sentido ter mais de 10% do patrimônio de um fundo bilionário de uma ação que não tem liquidez.
Se eles estiverem querendo reduzir a posição, considera uma decisão sensata. Vai penalizar o papel, mas ajustar o fundo.
Mesmo que tenham confiança na empresa, não faz sentido um fundo gigante ter 10% em um papel que negocia 200K por dia.
Imagine, por hipótese, que a FJTA fosse a R$ 12,00 em 1 ano. A GF ficaria com 25%-30% do fundo em FJTA? Sem condições!
Quanto à idéia de ir ao Novo Mercado, não acho que vá fazer muita diferença ter ON ou PN. Seria um tiro no pé querer ir ao NM trazendo prejuízo aos detentores de PN.
Não faria sentido querer elevar o nível de governança a partir de um mau exemplo.
Abraço!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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