Panamericano – Desdobramentos e dúvidas

Posted on 12/11/2010. Filed under: Finanças |

O caso Panamericano está 60% explicado. Talvez os outros 40% não serão explicados jamais…

Bom, aos acionistas do banco e aos que querem “especular” com ações do Panamericano, vale ler alguns comentários sobre o que está claro e, principalmente, sobre o que não está claro.

Fundo Garantidor de Crédito (FGC) emprestando para quem não é associado…

Essa foi a primeira coisa incrível relacionada ao caso. O FGC emprestou dinheiro a um grupo controlador que, até onde sei, não é associado ao Fundo.

É uma situação atípica. Na ordem natural, o FGC deveria garantir a solvência do banco e não do grupo controlador.

Infelizmente a leitura que se faz do negócio não é boa. Supondo que REALMENTE a decisão tenha sido técnica, tudo nos leva a crer que o FGC viu um severo risco sistêmico no episódio. Caso contrário, não faria qualquer sentido optar por algo diferente do padrão (intervenção do BC e/ou liquidação). O Panamericano não é “TBTF” (too big to fail).

Fica a dúvida, será que há outros bancos pequenos na mesma situação? Todos venderam amplamente suas carteiras de crédito durante a crise. Com anuência e apoio do BC.

Há muitas informações inconsistentes

1. Não há dinheiro público envolvido…

Está certa a colocação, mas a responsabilidade do episódio é do BC. Integralmente. Sem a aprovação do BC nada disso poderia (ou deveria) sair. Não dá para fugir. É coisa de governo, pois envolve todo o sistema financeiro nacional.

2. O Grupo Silvio Santos pode vender sua parte no banco para pagar o FGC!!!!

Essa informação é non sense. O banco valia, antes da fraude, quase R$ 2 bi. A parte de Silvio Santos pouco passava de R$ 1bi (incluindo todas as empresas). Como é que essa venda poderia pagar os R$ 2,5 bi do FGC? Ainda mais agora que o banco vale R$ 1,2 bi.

É uma informação muito estranha.

3. As fraudes com carteiras de crédito podem prejudicar outros bancos

No máximo é uma meia verdade. Se o BPNM vendeu as carteiras e não deu baixa, até onde consigo ver, isso só impactaria o balanço da própria instituição. Se as carteiras fossem vendidas duplamente, quanto tempo levaria para o comprador descobrir que o fluxo de caixa esperado pelos recebíveis não estava vindo?

É, no mínimo, difícil de acreditar que as entidades prejudicadas, inclusive as administradoras de cartões de crédito, não tenham percebido que o dinheiro não estava vindo…

No caso do não-repasse dos pagamentos feitos aos cartões de crédito é impossível que não tenha alertado os credores finais a tempo.

O mais estranho dos problemas

A informação mais difícil de entender é a que diz que ninguém será prejudicado, só o controlador. Nem os credores, nem a Caixa e nem os outros acionistas.

Já tratei disso em post anterior. A informação mais atualizada dá conta de que o FGC emprestou R$ 2,5 bi ao grupo controlador e NÃO AO BANCO.

Só que esse dinheiro TEM QUE ENTRAR no banco com alguma contrapartida contábil.

Se for empréstimo, o banco e os acionistas perdem. Se for aporte de capital, os acionistas perdem pela diluição.

A única forma desse dinheiro entrar e não prejudicar ninguém seria como PAGAMENTO dos empréstimos falsos ou ressarcimento dos prejuízos causados pelas fraudes.

Por que o controlador arcaria com todos os prejuízos?

Segundo Silvio Santos é para manter a boa imagem que o grupo tem no mercado. Vejam essa entrevista bizarra à folha de São Paulo.

O princípio contábil da entidade

Por esse princípio, a pessoa jurídica do Panamericano é totalmente distinta da pessoa jurídica do Grupo Controlador.

Não há como “transferir” a fraude de um CNPJ para outro.

Agora, a forma contábil para que os R$ 2,5 bi saim de um CNPJ (GSS) e entrem em outro (BPNM), pelo jeito, também é confidencial…

Mas não por muito tempo, só até o próximo balanço trimestral, no máximo.

Os acionistas atuais.

Não dá para saber o que acontecerá com as ações, pois as informações mais importantes são confidenciais. Mas que tenham em mente uma coisa: estão correndo risco imponderável, risco de falta de informação confiável.

O risco é da mesma natureza do que os acionistas correram com a Sadia e com a Aracruz. A primeira notícia da Sadia dizia que o rombo era de R$ 700 milhões. Bom, só sei que o passivo da Sadia saiu de R$ 5 bilhões para R$ 13 bilhões em pouco mais de 3 meses. O rombo era um pouquinho maior…

O valor patrimonial do BPNM, em 2009, era de R$ 5,38, superior à cotação de agora.

Se o dinheiro entrar no balanço sem contrapartidas no patrimônio líquido e sem diluição, pode ser que o banco volte a ser uma boa opção, naturalmente com outra direção e outro foco.

Por fim…

Não há conclusão possível, com tão poucas informações.

Eu só lamento que um episódio tão importante fique cercado de tantas inconsistências.

A inconsistência maior é quanto à opção por capitalizar o grupo controlador, em vez de deixar o BC intervir no banco e, eventualmente, liquidá-lo.

Fica difícil aceitar que o BPNM seja tão importante assim para causar risco sistêmico.

Talvez eles saibam de coisas que nós não sabemos. Se é assim, temos que torcer para que tenham sido sábios, pois uma crise bancária seria o pior dos mundos para esse novo panorama econômico positivo que acreditamos para os próximos anos.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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