Capitalização da Petrobras – Estadão Desvenda o Mistério

Posted on 10/09/2010. Filed under: Finanças |

A agência Estado publicou na noite ontem em seu site e como manchete principal em seu jornal “O Estado de São Paulo”, uma matéria que corrobora a primeira impressão sobre a leitura do Prospecto.

“É possível que, em vez de o governo capitalizar a Petrobras, o minoritário é que vai capitalizar o governo.”

Não é com esses termos que o jornal se manifesta, mas dá no mesmo. Leia aqui.

BNDES, Caixa, FSB, todos são minoritários e dinheiro não tem carimbo. Se um investidor individual colocou R$ 300.000 e a Caixa colocou R$ 1 bilhão, no caixa da empresa entrarão R$ 1.000.300.000. Tudo é da Petrobras.

Se sai do caixa da empresa para o governo, é o minoritário capitalizando a União.

Minha ingenuidade…

É realmente uma arte ser brasileiro. Quando li as notícias iniciais da capitalização da Petrobras, sabia que o governo não teria dinheiro para aportar e inventaria alguma estratégia viável.

Vender poços de petróleo era uma idéia interessante para substituir esse aporte. Faz parte do negócio da empresa e é algo reconhecido por investidores estrangeiros e nacionais.

Mas havia entendido que o governo aportaria em barris SOMENTE o necessário para chamada de capital.

Se precisasse aportar R$ 40 bi, venderia, por hipótese, 2,8 bilhões de barris. Se precisasse aportar R$ 50 bi, venderia o equivalente em barris.

Não passou pela minha cabeça que o governo pudesse vender para a Petrobras R$ 75 bilhões em barris, independente do resultado da capitalização. Tudo foi muito rápido, tem menos de 10 dias!

Qual o valor da receita esperada pela União?

Nas páginas 67-68 do prospecto, a União já define o seu aporte (não o das coligadas), considerando uma não-adesão de 50% dos minoritários na oferta primária. A União só compraria ON.

Segundo o prospecto, isso daria uma compra de 1.335.919.069 ações ON. A R$ 31,25, significa um aporte de R$ 41.747.470.906,00.

Também pelo prospecto a União, diretamente, não participaria de nenhuma outra oferta (varejo, institucional e lotes extras).

Qual a expectativa de receita a ser recebida pela União?

R$ 74.808.000.000 menos R$ 41.747.470.906 = R$ 33.060.529.094

E se a capitalização for um sucesso, e o governo e controlados não conseguirem colocar os R$ 75 bi?

O que o Estadão sugere é que a estratégia de colocar todos os entes federais para comprar ações em dinheiro ou em títulos públicos vai funcionar como uma forma de comprar qualquer sobra possível da capitalização, de maneira que ela seja um sucesso, pelo menos até o suficiente para cobrir a cessão onerosa.

Mas essa não é a questão mais relevante. O que assustaria mesmo, seria o fato de a capitalização ser um sucesso, com elevada participação dos minoritários.

É que, nesse caso, quem colocaria dinheiro não seria o BNDES, FSB ou Caixa, mas sim os minoritários que nada tem a ver com o governo.

Imagine que a oferta capte R$ 110 bi, conforme as projeções do prospecto, com ampla adesão dos minoritários (80%) e sucesso nas ofertas de varejo e institucional (sem lotes extras).

Os entes de governo, incluindo a união, conseguiriam aportar não mais do que R$ 46,99 bilhões. Os outros R$ 63,81 bilhões viriam de minoritários, pois eles exerceriam seus direitos de preferência.

E a Petrobras teria que pagar os R$ 74,808 bi. Nesse caso, não restaria dúvida de que parte do dinheiro que foi utilizado para pagar a cessão onerosa teria vindo de minoritários.

Não dá para afirmar que os investidores pessoas-físicas estão cientes dessa possibilidade. Tudo foi muito rápido.

Não é bom para a Petrobras, nem para o minoritário e pode ser ruim também para o majoritário (União).

Se o dinheiro ficasse no caixa da Petrobras, a operação estaria mais do que justificada. Mas, como se vê e com base na página 140 do prospecto, apenas 32% do valor capitalizado ficará com a empresa.

O governo corre risco de parecer inimigo da empresa que é tratada como um orgulho para os brasileiros.

Por fim, mas não menos importante

Só para lembrar o mecanismo de aporte. Muitos devem estar confusos com a questão de “aportar barris de petróleo”.

A União, através do Tesouro Nacional, vai emitir títulos públicos para pagar sua parte na capitalização.

Considerando as premissas do próprio prospecto, emitiria R$ 41 bilhões.

Em 30 de setembro de 2010, receberia, com os mesmo títulos públicos e com dinheiro, R$ 74,808 bilhões.

O aporte do governo virá em títulos públicos. A operação só não vai aumentar a dívida pública, pois o governo receberá, ainda dentro do mês de setembro, R$ 74,808 bi, que entrará como receita semelhante à obtida nas privatizações.

Como emitirá, provavelmente, menos do que receberá, isso deve contribuir para melhoria das contas públicas.

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6 Respostas to “Capitalização da Petrobras – Estadão Desvenda o Mistério”

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[…] This post was mentioned on Twitter by Cristina Benevides, Cristina Benevides, Cristina Benevides, Cristina Benevides, Cristina Benevides and others. Cristina Benevides said: "Es ist möglich, dass anstelle der Kapitalisierung die Regierung auf, Petrobras, die Minderheit wird von der Regierung -http://bit.ly/c4RKM3 […]

Análise interessante, mas não inverossímel. Eh eh eh ninguém dá ponto sem nó

Caro Pedro. Realmente… ninguém dá ponto sem nó! Abraço!

Prezado Paulo,

otimos comentários. Saberia dizer qual a projeção de custo para o barril do petróleo extraído da camada pré-sal?

Prezado Paulo,

ótimo comentários.

Saberia dizer qual a projeção de custo do barril de petróleo extraído da camada pré-sal? Poderia citar a fonte?

Obrigado,

Deuteron

Caro Deuteron, não conheço nenhum estudo que indique esse custo, até por ser um modelo novo de extração.
O valor definido para a cessão onerosa dos 5 bilhões de barris do pré-sal é US$ 8,51 e está exposto no próprio prospecto.
Mas não significa que seja a previsão de custo.


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  • Disclaimer

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    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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