Capitalização da Petrobras – Update 3 – Leitura do Prospecto

Posted on 03/09/2010. Filed under: Finanças |

O prospecto de 620 páginas foi divulgado hoje, dia 03/09/2010. Para ler o prospecto, clique aqui.

Há uma enormidade de notícias sobre o assunto, elas já trazem todos os pontos mais evidentes da oferta.

Vou procurar não ser trivial e trazer pontos ainda não tratados pelos jornais, bem como levantar algumas questões que não consegui entender ao ler o prospecto.

A oferta básica e os lotes extras

A oferta pública vai, inicialmente, disponibilizar 2,17 bilhões de novas ações ON e 1,58 bilhões de ações PN, totalizando 3.759.941.898 novas ações. A proporção entra ON e PN é EXATAMENTE igual à que a companhia tem hoje (57,82% de ON e 42,18% de PN).

Essa nova emissão, aos preços praticados no prospecto (R$ 31,25 para ON e R$ 27,03 para PN) representaria um aumento de capital de R$ 110,8 bilhões.

Pelo que entendi, caso haja demanda, um lote adicional e um lote suplementar, totalizando 15% a mais no número de ações, poderão ser ofertados.

Nessa hipótese o valor da companhia poderia chegar (aos preços colocados anteriores) a R$ 385 bilhões.

Primeira dúvida… Quem comprará as ações que não vão à oferta prioritária?

O prospecto indica que apenas 80% das ações emitidas irá a mercado na oferta prioritária (aos acionistas atuais). Porém não consegui encontrar qual seria o destino dos 20% restante.

Pode-se ter a impressão de que as ações restantes iriam diretamente a mercado, sem passar pelo direito de preferência, mas isso TAMBÉM não é dito, de forma clara, pelo prospecto.

Uma opção plausível seria a de que o governo e as entidades relacionadas iriam subscrever diretamente essas ações.

Isso faz algum sentido pela leitura das páginas 67 e 68 do prospecto. A posição do Governo sairia de 2.818.751.784 ações ON para 4.154.670.853 ações ON, 1.335.919.069 a mais (47,4% a mais).

Isso não seria possível, caso o governo exercesse exclusivamente seu direito de preferência (55,56% das ON). Como somente 80% das ações irá a oferta pública prioritária (total de 1.739.259.091 ações ON), a União só poderia comprar, antes das sobras, 966.332.367 ações ON, bem menos do que está antecipado no prospecto.

A não ser que esteja considerando comprar as sobras da Oferta Prioritária, mas é uma premissa que, creio eu, não deveria estar no prospecto.

É possível que os 20% seja comprado pela União e coligados, mas não dá para afirmar. Se alguém tiver informações mais detalhadas, deixe nos comentários que aprovo e todos poderão ver.

Obs. Pausa para o português… 80% e 20% são números menores do que 1, portanto a concordância dos verbos, no singular, está correta.

Acionistas do FMP-FGTS

O governo resolveu a questão do FGTS indicando que o direito de preferência desse grupo está limitado a 30% do saldo restante nas contas vinculadas de FGTS.

Pelo que entendi, se o sujeito não tiver o suficiente, perderá participação.

Haverá diluição, mesmo para os que exercerem todo o direito de preferência

A companhia vai emitir, no mínimo, 42,85% a mais de ações com base no que tem hoje. Porém, o direito de preferência estará limitado a 80% dessa emissão, o que equivale a 34,28%;

A diluição (perda de participação) mínima, para quem exercer o direito e não comprar sobras, será de 6% da participação, (1,3428/1,4285).

Para quem não exercer o direito, a diluição de participação será de 30%, (1/1,4285).

O curioso dessa diluição é que os números são quase redondos. Dá 5,99958% no primeiro caso e 29,9979% no segundo caso.

Alguém fez essa conta… com certeza!

As sobras e as “sobras das sobras”

O prospecto trata das sobras das páginas 74 a 76.

Pelo que consegui entender da leitura das regras, caso haja sobras na primeira reserva, quem manifestou interesse em comprar essas ações poderá participar do rateio das sobras, até o limite da proporção de sua participação na subscrição.

Caso haja sobras das sobras, as ações poderão ser INTEGRALMENTE rateadas entre os acionistas interessados.

Em resumo, pode ser que não sobre nada da Oferta Prioritária. Pode ser que tudo fique entre os sócios atuais.

E ainda, os acionistas ON poderão participar de sobras das “sobras das sobras” das PN…

Como o governo e o BNDES já indicaram que desejam subscrever ações até o limite de R$ 74.807.616.407,00 (quase 70% de toda a expectativa de aporte) é razoável esperar que não haverá sobras…

A parte do governo não vem em dinheiro.

O contrato de cessão onerosa garante ao governo uma venda de R$ 74,8 bilhões em barris do pré-sal. É dessa forma (indiretamente) que o governo vai aportar seus recursos no aumento de capital.

O presidente Gabrielli deu uma entrevista hoje que traz informações, em minha opinião, que podem desestimular o investidor individual a acompanhar o aumento de capital. Leia aqui.

Ele afirma que:

– O primeiro campo cedido pelo governo entrará em produção em 2015 e o último em 2020.
– As reservas de 5 bilhões de barris só poderão ser incorporadas após 4 anos, pois é a fase prevista para exploração
– Caso haja poços secos, o prejuízo é da Petrobras

Infelizmente não são notícias boas. A Petrobras vai COMPRAR os 5 bilhões de barris por R$ 75 bilhões. Antes a empresa pagava um valor pequeno pelas concessões, para arcar com todo o risco da operação. Inclusive de não ter petróleo.

Não é razoável que ela pague essa fortuna por uma área que, ao que tudo indica, não há comprovação suficiente da existência de petróleo.

Só para ter uma idéia, Eike Batista gastou R$ 800 milhões nas primeiras licitações da OGX. A empresa, hoje, vale R$ 66 bilhões e, segundo o release de resultados tem mais de 6 bilhões de barris comprovados.

Teria sido melhor para a Petrobras comprar a OGX. Com todo o respeito…

Agora a dúvida maior. Eu realmente não entendi o que li no prospecto! Ou entendi e não acreditei…

Peço, por favor, que leiam a página 140 do prospecto, a que trata da “Destinação dos Recursos“.

Pois bem, como o aporte do governo não será feito em dinheiro, para a Petrobras seria melhor que esse aporte fosse o menor possível.

Pela leitura da página 68, pode-se entender que o aporte do Governo e do BNDES (pela nova posição de ações que teriam após a oferta) ficaria em R$ 48 bilhões, e os R$ 62 bilhões restantes viriam do mercado, totalizando R$ 110 bilhões.

Pois o prospecto diz CLARAMENTE que 68% dos recursos captados será destinado à contrapartida da Cessão Onerosa. 68% de R$ 110 bi correspondem a aproximadamente os R$ 75 bi que a Petrobras terá que pagar ao governo.

Só que meu entendimento tinha sido outro. Imaginei que o governo iria utilizar o contrato de cessão onerosa EXCLUSIVAMENTE para pagar seu aporte no aumento de capital.

Pela leitura do prospecto, caso realmente o mercado entre com R$ 62 bilhões, o governo fará um aporte em títulos públicos de R$ 48 bilhões, e receberá da Petrobras R$ 75 bilhões em dinheiro e títulos, pelo contrato de cessão onerosa.

Isso não faz qualquer sentido. Em vez de capitalizar a Petrobras os investidores estariam capitalizando a União!!!

Está aí uma coisa que precisa ser esclarecida. Minha primeira impressão indicava que o governo aportaria “barris” até o limite da chamada de capital, não mais do que isso.

Dúvidas… isso é que dá querer ler um prospecto de 620 páginas…

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5 Respostas to “Capitalização da Petrobras – Update 3 – Leitura do Prospecto”

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Portinho fui teu aluno e gostaria de saber se você ainda tem a banda de Rock da qual participava a alguns anos atrás. Aguardo resposta. Abraços

Oi Luiz,
Continuo tocando sim. Se você colocar no youtube a palavra DUCARVALHO vai ver alguns shows nossos.
Abraço,
Portinho

[…] link muito interessante sobre esse processo é o artigo escrito pelo Paulo Portinho, que faz uma leitura esclarecedora sobre o prospecto da Petrobras, a qual deixou muitas dúvidas. […]

Você poderá subscrever 34 ações. Se quiser mais, poderá indicar que deseja ratear as sobras. Agradeço os links. Abraço!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

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    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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