Capitalização da Petrobras – Importante!

Posted on 17/08/2010. Filed under: Finanças |

Uma das dúvidas que mais aparecem aqui no INI diz respeito à capitalização da Petrobras, processo pelo qual a empresa espera obter recursos para cumprir seu plano de investimentos de 2010 a 2014.

Adianto que o processo é tão complexo que confunde até os analistas mais experientes. Hoje saiu uma notícia, às 14:08h, indicando que George Soros zerou a posição (US$ 638 milhões) em Petrobras durante o segundo trimestre desse ano. Talvez nem ele esteja entendendo bem. Espero que seja isso, pois se ele entendeu e vendeu… não é bom sinal!

O site Infomoney tem um belo material sobre a capitalização da Petrobras, clique aqui para ler.

O objetivo desse post é (tentar) explicar a capitalização for dummies, ou seja, para quem não é experiente no assunto.

O governo, esse “estranho” investidor

Nem sempre os governos agem com racionalidade financeira. No momento que “descobriram” o pré-sal, em vez de estimular a entrada de capitais de risco (alguém vai dizer que pré-sal não é risco?), faz justamente o contrário. Bloqueou tudo, parou tudo, voltou tudo, acabou com tudo!

É a hora em que aparecem “as criancinhas”, “o futuro do país”, a “justiça social” e outros bichos que, ditos por políticos, não significam nada.

Desde 2007 o ministro Lobão diz na TV que “em seis meses” o modelo de exploração do pré-sal vai estar definido. Só parou porque não é mais ministro.

Recentemente o congresso (outra entidade com lógica complexa) aprovou mudanças na forma de exploração do pré-sal. E criou a Petro-sal (ou outro nome qualquer) que dá direito a indicados políticos de fiscalizarem e decidirem se os custos de exploração estão corretos ou não. Naturalmente precisaremos contar com políticos de posturas verticais, elevada ética e desprendimento de “coisas” materiais como bilhões de reais em “agrados”, para que o processo ocorre dentro da exigida correção.

A cessão onerosa

Dentro do que o congresso aprovou há a tal “cessão onerosa” de 5 bilhões de barris do pré-sal. Isso de uma área não licitada, que ainda está em poder da união.

Pelo que entendi, o governo vai usar esses 5 bilhões de barris, a 7 mil metros de profundidade, para pagar sua parte na capitalização da Petrobras. A seguir, detalho a operação.

Uma auditoria independente vai dizer quanto valem esses barris. Vamos trabalhar com o PISO para os barris, que, ao que tudo indica, seria de US$ 5. Digo isso porque o governo já avisou que US$ 5 é pouco! Veja o link anterior.

Isso daria US$ 25 bilhões que a Petrobras teria que PAGAR ao governo.

Não é fácil entender, mas ao que tudo indica o governo aportaria US$ 25 bilhões em títulos públicos e a Petrobras utilizaria esses mesmos títulos públicos para pagar a cessão onerosa.

Pode? É claro que pode. O governo tem os títulos e não vai perder nada (exceto se houver descasamento entre a cessão onerosa e o aporte dos títulos, mesmo assim seria pouco).

Não vamos entrar no mérito se vale ou não vale pagar por algo tão arriscado e tão distante no tempo. A auditoria falou que vale, então entrará no balanço valendo.

Então fica assim. O governo que tem aproximadamente 1/3 do capital da Petrobras vai colocar o aporte dele dessa forma.

E os outros 2/3?

A lei garante aos acionistas o direito de preferência. Significa que eles podem comprar as novas ações emitidas na mesma proporção do capital que já possuem na empresa. É lei e precisa ser garantido.

Como os acionistas não tem “barris de petróleo do pré-sal” para aportar, terão que fazê-lo com dinheiro mesmo. Dinheiro novo!

Vamos aos números!

A Petrobras tem 5,07 bilhões de ações ordinárias (ON) e 3,7 bilhões de ações preferenciais (PN). O valor de mercado da empresa era, em 16/08, R$ 263 bilhões.

Ora, supondo que a empresa vá garantir o direito de preferência dos minoritários, teria que oferecer US$ 75 bilhões em novas ações. Ao câmbio de hoje, isso significa R$ 133 bilhões em novas ações.

Numa conta bem boba, significa que a Petrobras teria que emitir algo como 50% a mais de ações (R$ 133 bi divididos por R$ 263 bi).

O total de ações, que era de 8,77 bilhões saltaria para 13,16 bilhões.

Mesmo que TODOS os minoritários aportem dinheiro vivo, os múltiplos da Petrobras já piorariam por conta do aumento no número de ações.

P/L (ON e PN) de 8,2 para 12,3
DY (considerando 25% de payout) menor que 2% ao ano.

Mas haverá, em caixa, US$ 50 bilhões, que é aproximadamente o que a Petrobras precisa para cumprir seu plano de investimentos até 2014.

E se Roberto, Thompson, McDougall, Chin Li, Ahmed e outros não quiserem aportar?

Well… 40% do capital total da Petrobras está em mãos estrangeiras. Se todos exercerem seu direito de preferência haverá um fluxo inédito e imprevisível no país.

US$ 30 bilhões entrariam no país, ou seriam remanejados de outros investimentos por aqui. Não dá para antecipar o que pode acontecer com o dólar ou com outros investimentos. Mesmo assim seria pontual.

No Brasil é difícil acreditar que um investidor médio que tenha, por hipótese, R$ 100.000 em Petrobras vá pegar R$ 50.000 de suas reservas ou de outros investimentos para garantir seu direito de preferência.

E o pessoal do FGTS eu nem sei como faria. O direito é do fundo (CNPJ) e ele está fechado para captação. Mesmo que o governo permita o uso do FGTS, haverá milhares de casos onde o FGTS não cobrirá integralmente o direito de preferência.

É pouca gente, mas é lei. Se um cotista qualquer resolver questionar na justiça que o modelo inviabilizou seu direito de preferência, pode atrapalhar bastante.

Na pior das hipóteses, ninguém acompanha. Não vai acontecer, pois há a Previ e o BNDES, mas é razoável esperar que haverá sobras nesse direito.

Supondo que, por hipótese, US$ 10 bilhões em ações não sejam exercidos, acredito que essas ações tenham que ir a mercado.

Daí o preço é definido pelo bookbuilding, oferta x demanda pelo papel. É o que acredito que vá acontecer, mas não há indicação de que será assim em nenhum documento oficial.

Tudo entendido?

Complicadíssimo, não é?

Pois é isso que vai movimentar o país, junto com as eleições, até o dia 30 de setembro de 2010.

A minha opinião pessoal é que a capitalização não atingirá todo o volume de novos recursos desejado proveniente dos minoritários e, provavelmente, o governo e alguns entes “assemelhados” (Fundos de Pensão e BNDES) irão aproveitar para aumentar a participação no capital da Empresa.

Aliás, o governo já vem dizendo que gostaria de aumentar o capital na empresa.

Como vocês puderam ver nos links que coloquei anteriormente, qualquer valor muito superior a US$ 6,00 ou US$ 7,00 poderá espantar investidores privados.

Bom para o governo, caso realmente queira comprar a participação dos minoritários.

Há coisas muito mais simples do que isso na vida, não é mesmo?

Bom, para dar uma aliviada, vou demonstrar a Teoria da Relatividade Restrita de Einstein no próximo post.

Atualização 18/08/2010 – Jornal O Globo

É… o pessoal do governo tem se manifestado de forma contrária à visão do mercado. Enquanto, nos links acima, os analistas chegam a falar de US$ 2,00 por barril e indicar que mais de US$ 7,00 seria ruim para o acionista, no governo fala-se abertamente em U$ 10,00 ou mais.

Quanto maior o valor da cessão onerosa, maior será a emissão de novas ações e mais difícil ficará para os minoritários acompanharem.

30 de setembro de 2010?

Quem viver verá!

Ministro Marcio Zimmermann fala abertamente em US$ 10 por barril

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4 Respostas to “Capitalização da Petrobras – Importante!”

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Realmente, foi uma explicação para quem não entende nada. Na verdade, foi uma crítica política ao governo, de explicação teve pouca coisa. Em primeiro lugar, essa conversinha de que a quantidade de ações vai prejudicar os minoritários é chute. Algumas empresas fazem desmembramento e pouco tempo depois a cotação já está igual. Para não ficar falando muito eu diria apenas o seguinte: qualquer que seja o negócio feito será MELHOR do que foi vender a VALE por 3,3 BILHÕES DE REAIS.

Caro Antonio Passos
Sua opinião é bem-vinda neste site.
Quanto ao prejuízo aos minoritários é algo possível, não é? Em qualquer capitalização os minoritários podem sair prejudicados ou beneficiados. Só os resultados futuros dirão.
Lamento não ter conseguido explicar a contento, era essa minha intenção.
Se entendeu como uma crítica ao governo, não vejo qualquer problema nisso, pois é nosso direito, seu e meu, a livre manifestação de idéias e opiniões.
Atenciosamente,
Paulo Portinho


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    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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