Reflexões sobre o mercado

Posted on 15/06/2009. Filed under: Finanças |

 
Amigos,
 
O mercado é racional no macro e irracional no micro.
 
Já temos gente falando de bolsa a 75.000 pontos no final do ano, 200.000 pontos até 2014 etc.
 
Não é impossível, mas dependerá MUITO do crescimento mundial. Os analistas parecem esquecer que houve a década de 70 no mundo, a década de 80 no Brasil, a década de 90 no mundo…
 
Emergentes
 
É razoável crer que os países emergentes conseguirão segurar algum nível de crescimento mundial, mas a coisa está muitíssimo longe de ser resolvida em países desenvolvidos.
 
O Brasil é um país fechadíssimo, por isso sofre menos. Nossas exportações não passam de 8% a 10% de nosso PIB. Peanuts. Por mais que caiam nossas exportações, ainda são uma pequena parte do nosso produto.
 
A China é um país peculiar. Por mais que a situação piore, sempre haverá a propaganda oficial indicando qual “verdade” é conveniente levar adiante. Não há essa história de clima ruim. E ainda conta com um mercado consumidor carente e quase do tamanho da Europa e dos EUA juntos. Se cada chinês que não tem papel higiênico comprar um rolo por semana… acabam com a floresta em 2 ou 3 anos.
 
Os acionistas da VCP e da Aracruz vão ficar ricos, não vão conseguir respirar, mas vão nadar na grana. Até porque água já não haverá…
 
O capitalismo como reflexo dos desejos individuais
 
O capitalismo tem uma característica curiosa. Ele é organizado pelos desejos pessoais dos participantes. Não há um ser humano sequer que deseje ver suas propriedades distribuídas a esmo, seu esforço recompensando o ócio de terceiros ou sua vida regulamentada por rações estatais.
 
Quer dizer… Talvez alguns não gostem, mas certamente a maioria quer sua casa, seu carro, sua graninha, seu churrasco, seu tênis, seu hamburguer entre outras coisas.
 
E, infelizmente, muitos “precisam” de uma casa MELHOR que a do vizinho, um carro MELHOR que o do vizinho…
 
Se é ruim, lamento. Mas é a cara dos participantes. Eles adoram e, quanto mais inseridos no capital e no consumo, mais felizes ficam.
 
Não é culpa minha e eu posso provar!
 
Não briguem comigo, eu não criei o mundo. Se fosse eu, teria criado um décimo-primeiro mandamento: Não farás mais de 1 gol na defesa do Flamengo! Pecado mortal!
 
Certamente não fui eu…
 
Bom, voltando ao mercado…
 
Hoje, o índice P/L das ações européias (Stoxx 600) está próximo a 19. O maior valor desde o início da crise. Nos EUA, após o rally dos últimos meses, o P/L do S&P está próximo a 15 (ambos dados colhidos no site www.bloomberg.com).
 
São valores absolutamente normais, ainda mais nesse mundo de taxa de juros ZERO. Ocorre que não há previsão de quando os lucros voltarão a crescer. Ou seja, se os preços de mercado se mantiverem, com a queda prevista nos lucros até, ao menos, o final de 2009, esse múltiplo tende a subir por inércia.
 
Aqui no Brasil não há estatística oficial, mas é razoável crer em algo menor do que 10, hoje em dia.
 
Parece não haver bolha, ao menos não dá para ver. Não há ativos caríssimos, que mereçam uma correção de 50%, 60%.
 
Os riscos…
 
Há algumas “minas financeiras” que ainda podem explodir, são elas:
 
  • Inadimplência com cartões de crédito nos EUA. Isso seria catastrófico, pois as administradoras trabalham com contas ajustadíssimas, qualquer desequilíbrio tende a cortar crédito para compras futuras. A inadimplência está crescendo, mas ainda não dá para afirmar que vai atingir níveis alarmantes.
  • “Burackaço” nas contas públicas dos países desenvolvidos. Well… Isso já existe. Quando um país está gastando MUITO mais do que recebe há algumas saídas. 1- Emitir dinheiro, 2- Ajustar-se com inflação, ou seja, emito moeda, mas a economia tira seu valor resolvendo o problema de excesso, 3- Reduzir drasticamente o gasto público, 4- Subir juros para garantir o pagamento das obrigações de curto prazo.
  • Moedas fortes. Há um desequilíbrio econômico no mundo. Há enorme abundância de dólares e euros, mas essas moedas ainda mantêm seu valor elevado. Isso não está previsto na teoria básica. É explicado, em parte, pela estratégia chinesa de NÃO permitir que sua moeda flutue livremente. Também pelo fato de que todas as reservas são em moeda forte e, naturalmente, ninguém quer perder valor. Por fim, há um movimento especulativo forte demais (demais mesmo) operando na arbitragem imaginária entre o valor do dólar e os preços das commodities. É imaginária sim, é bullshit. O dilema de tostines aplicado à teoria dos jogos de azar: as commodities sobem por que o dólar cai ou o dólar cai por que as commodities sobem?
  • Desemprego. Os analistas concordam que o nível de emprego ainda vai cair muito antes de subir. Isso é particularmente grave nos países emergentes do Leste Europeu, encalacrados com suas moedas e com o FMI (bancão do Lula!) e para os países desenvolvidos de uma maneira geral. Espanha e Itália na frente do carro desgovernado descendo a ladeira.
Desses riscos, o único que já está posto e que deverá levar entre 5 e 10 anos para se reverter (se for possível…) é o déficit dos países desenvolvidos. Lembro que o Clinton (aquele da Mônica Levinsky) levou 6 ou 7 anos para entregar um superávit ao governo Bush. A literatura da época do superávit é sensacional, mas é tema para outro e-mail…
 
Desemprego vai e volta. A Europa foi do inferno ao céu e de volta ao inferno em 12 anos. Pode ir ao céu de novo.
 
Moedas… Olha, isso é imprevisível. Um dia, ainda distante, será interessante para a China ter moeda forte e valorizada. Eles só devem ficar atentos, pois seu sistema de câmbio extravagante é um dos motivos da nossa crise atual. O Japão, ao liberar seu câmbio em 1985, criou uma bolha incontrolável que estourou em 1989 e nunca mais voltou a encher…
 
Cartões de crédito… Parece controlável, se não houver mais expurgos a fazer. Ou seja, se não houver mais cadáveres financeiros nos armários de Wall Street.
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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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