O FMI e a Política

Posted on 10/06/2009. Filed under: Finanças, Política |

 
Como alguns já devem ter lido, o Brasil vai emprestar US$ 10 bilhões ao FMI.
 
Antes de comentar sobre o empréstimo em si, vale ressalter 2 pontos:
 
1. Para que serve o Fundo Monetário Internacional?
 
Os países operam com moedas nacionais.
 
Os EUA não aceitam Pesos Argentinos, assim como a Suíça não aceita dólares Australianos. O comércio internacional precisa ter relações de troca fidedignas entre as moedas para acontecer.
 
Quer ter uma noção disso: Troco AGORA 100 bilhões de dólares do Zimbábue pelos R$ 10 que você tem no bolso, topa?
 
Entendeu a necessidade das relações de troca fidedignas e aceitas amplamente?
 
O papel prioritário do FMI é esse. Garantir que o comércio internacional flua, além de evitar que os países sofram com falta de divisas para exportar e importar bens e serviços.
 
Faz isso provendo moeda internacionalmente aceita (dólar) a quem não tem, pegando emprestado de quem tem. Como o Brasil, hoje.
 
As críticas históricas ao FMI são fruto das condições dos empréstimos oferecidos. O FMI condicionava os empréstimos a políticas financeiras e fiscais ortodoxas.
 
Alguns gritavam que isso iria contra a soberania dos países etc.
 
Na primeira vez em que tentamos um acordo com o FMI, durante o governo JK, o Fundo exigiu que parássemos a construção de Brasília e acabássemos com o câmbio seletivo (um valor para cada atividade econômica).
 
É uma pena que não tenhamos aceitado…
 
O FMI estava quase extinto antes da crise financeira de 2008.
 
Isso porque os tradicionais devedores, países em desenvolvimento, estavam (e estão) abarrotados de dólares. Não havia quase utilidade para o FMI.
 
Depois da crise, muitos países, principalmente do Leste Europeu, África e Ásia, correram a pedir dinheiro ao fundo, para evitar falta de divisas estrangeiras. O FMI ressuscitou!
 
Resumindo, o FMI serve para evitar que os países passem por colapsos cambiais. Aliás, o Brasil, antes de acumular reservas relevantes, já foi salvo algumas vezes.
 

 
Quando a razão dita os caminhos a seguir, dizemos que as decisões são racionais. Ocorre que há razões e razões…
 
Os valores primordias da ciência, ao menos na minha opinião, devem prestigiar a imparcialidade, o respeito ao método, a isenção do observador etc. Prestigiar e buscar não são a mesma coisa que obter. O que importa é que o caminho da ciência tenha esses valores.
 
Os valores da política já não são assim…
 
Se você quiser entender um político, pense o seguinte:
 
“A política é o ramo de atividade humana onde o valor principal é o PODER e a sua manutenção.”
 
Acredite, dá para entender qualquer atitude política sob esse prisma.
 
Voltando ao tema “O FMI e a Política”
 
Ver históricos críticos do FMI emprestando dinheiro ao fundo, demonstra com enorme clareza a questão da racionalidade política, exposta acima.
 
A técnica pura e simples indica que o Brasil, ao fazer o empréstimo, está jogando nas mesmas regras que sempre jogou, só que em outra posição.
 
Antes, só países desenvolvidos contavam com reservas suficientes para capitalizar o FMI. Hoje os países desenvolvidos estão afirmando: Vocês precisam ajudar. Chegou a vez dos países em desenvolvimento pagarem a conta do equilíbrio monetário mundial.
 
E chegou mesmo. Há muitos países necessitados e que não participaram do último ciclo de crescimento mundial. O acúmulo de reservas serve, exatamente, a esse propósito. De que adianta ter reservas em dólar, se não há interesse pela moeda?
 
Quer dizer, o Brasil NÃO TEM opção. Peitar a chamada do FMI para aportar recursos seria não financiar o mesmo sistema monetário que tanto nos favoreceu nos últimos anos.
 
O governo tem uma política estranha de privilegiar o comércio internacional com compradores insignificantes como a Burkina Faso, Coréia do Norte, Togo, Butão, Líbia, Irã etc. Esses países são carentes de dólares.
 
Ou será que o Brasil vai começar a aceitar Ngultrum, rial, Dinar, Won ou Colares Tribais?
 
Por que ainda me preocupo com isso…
 
1 entre 10.000 brasileiros sabe realmente para que serve o FMI. 
 
Alguns outros, formadores de opinião, confundem a cabeça dos que entendem pouco de economia internacional para impor um modelo de racionalidade política. Afirmam que o FMI é um instrumento de dominação etc.
 
Bullshit. A prova disso é que o FMI está de pires na mão para o Brasil, a China, Índia e a Rússia.
 
Minha intenção foi trazer aos 200 e poucos amigos aqui no nosso blog, comentários que permitam a reflexão a respeito da notícia e dos seus desdobramentos.
 
É que sofreremos um bombardeio político com afirmações nacionalistas, esquerdistas, direitistas, Dilmistas, Lulistas, Serristas etc.
 
Aos amigos, quero trazer um grãozinho de história sobre o assunto, para que tenham ainda mais condições de fazer uma leitura crítica dos eventos atuais.
 
O que aconteceu foi natural. O governo seguiu o caminho mais comum, não inventou nada. Mas, provavelmente, vai tratar isso como uma grande conquista.
 
É bobagem. Fez o que qualquer governo conservador faria, dadas as circunstâncias.
 
Vocês verão isso ser tratado de forma positiva pelo governo e, talvez, de forma negativa para o oposição. Mas o que aconteceu foi o evento mais conservador possível.
 
Estranho seria ter negado recursos. Apesar de estar mais de acordo com o discurso histórico dos que ora emprestam ao fundo.
 
Mas isso é política, não é mesmo?
 
2. O que é a racionalidade política?
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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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