O fim de um país – Islândia

Posted on 14/10/2008. Filed under: Finanças, Política |

 
A Islândia está em apuros. Severos apuros.
 
Lembro de ter encontrado 4 Islandeses (10% da população) há alguns meses e era incrível como se vangloriavam do sistema financeiro do país. Era tão sofisticado que garantia a uma ilha minúscula a condição de melhor país do mundo para se viver.
 
Naturalmente não teria esse posto se Ipanema fosse um país…
 
A situação atual é bem assustadora.
 
Na eleição de 1998, Leonel Brizola dizia que olhava para nossas reservas internacionais de 40 bilhões de dólares e pensava nas criancinhas…
 
Ele indicava que iria usar as reservas internacionais, caso eleito, para investir em educação. Se fizesse isso, o câmbio iria para o infinito, pois haveria uma corrida alucinada para retirar os dólares daqui.
 
Nosso comércio internacional iria a ZERO, ou retrocederia aos tempos pré-FMI, a era do escambo. Troca aí uma saca de café por um barril de petróleo…
 
Esses populistas sempre fizeram muito mal ao país e, ainda hoje, encontram espaço para vomitar suas bravatas eleitoreiras. Por sorte, a economia tem ficado longe dessas atitudes heterodoxas.
 
Pois, bem a Islândia está nessa situação.
 
Não há reservas e o que tinham no exterior foi congelado pelos outros países, pois a Islândia mandou um mega-calote nos correntistas estrangeiros de seus bancos.
 
Ontem, houve a tradicional corrida aos supermercados. Eles compraram tudo para fazer estoque, dado que a moeda deles vale menos a cada dia e NÃO HÁ moeda estrangeira para fazer novas importações. C
 
omo o país não produz nada além de peixe e derivativos financeiros, teme-se que o sashimi seja o prato único nos próximos anos…
 
O comércio internacional simplesmente acabou. Para obter crédito em moeda estrangeira, os juros são altíssimos e a taxa de câmbio é proibitiva. Vejam:
 
http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=newsarchive&sid=aVFtDRGwcc50
 
Para piorar, a maior parte dos empréstimos tomados pelos cidadãos islandeses é denominado em moeda estrangeira, pois nesse ano os juros haviam subido a 15,5% por lá, enquanto em libras e euros ainda se mantinham em 5% a 6% ao ano. As prestações estão subindo 30%, 40%. E sem qualquer previsão de queda.
 
http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=newsarchive&sid=am95H4YHyr50
 
E, como se já não bastasse tudo isso, a bolsa da Islândia reabriu hoje, depois de 3 dias de pregão suspenso. O que aconteceu? Ora, os três bancos quebrados que foram nacionalizados representavam 76% do índice OMX Iceland 15. Como essas ações viraram pó, a bolsa caiu 77%! Não é incrível?
 
http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aiOsVKxMKins&refer=home
 
Pois bem, isso é o efeito da alavancagem financeira.
 
O peso do sistema financeiro do país, das dívidas do sistema financeiro, esmagaram a economia da Islândia. Quando houve restrição de crédito, e os bancos não conseguiram rolar suas dívidas, o castelinho de cartas ruiu.
 
Agora o FMI está sendo ressucitado na Islândia, na Ucrânia, na Hungria e em outros países que estão com risco de colapso no sistema bancário.
 
No caso da Islândia não há muito o que fazer. O país vai ter que entregar qualquer resquício de soberania nacional e aceitar imposições duríssimas dos organismos internacionais.
 
Provavelmente vão ter que adotar o Euro, vão assumir dívidas impagáveis com o FMI ou com países da comunidade Européia, vão ter que seguir a cartilhazinha do consenso de Washington, de Bretton Woods e todas aquelas regrinhas do FMI para o funcionamento azeitado da economia. Ou é isso ou é decretar moratória ou default da dívida, que agora não é mais dos bancos, mas do país, dado que foram nacionalizados.
 
Nas duas situações o país empobrecerá vertiginosamente. Os Islandeses já perderam 60% de sua riqueza, com a desvalorização do câmbio e mais outro tanto inimaginável com o derretimento de sua bolsa. Além de terem, cada um, uma dívida de 300.000 dólares com o mundo, por força da alavancagem de seu sistema financeiro.
 
Sabe o que acho interessante nisso tudo?
 
É que deveria servir para os “nacionalistas” brasileiros, esses “patriotas”, reverem seus conceitos ideológicos arcáicos e errôneos.
 
Eles que sempre praguejaram contra o FMI, contra os países ricos, contra Bretton Woods, contra o Proer, contra a autonomia do Banco Central etc., alegando que havia um posicionamento ideológico da “direita” querendo derrotar a “esquerda”, “ricos” contra “pobres”, essas coisas.
 
Pois deveriam dar a leitura correta agora.
 
O FMI e os consensos da economia mundial seguem, ou buscam seguir, o caminho da ciência e não da ideologia. Por isso mesmo, modificam-se para incorporar o pensamento científico que melhor se ajusta à realidade. Quem fez essas regras estava pouco se lixando para política, a preocupação era propor um sistema econômico funcional. Essas regras mudam, esses pensamentos mudam, como a ciência muda, pois se não mudasse não seria ciência, seria ideologia ou fé.
 
O que estamos vendo agora é o FMI fazendo tudo o que sempre fez com países paupérrimos, impondo todas as condições duras para manutenção dos empréstimos, no país com o melhor IDH do mundo e com a quarta renda per capita do planeta.
 
E agora, será que o FMI é um instrumento de dominação ou de estabilização monetária?
 
Só para lembrar, a própria Inglaterra se submeteu ao FMI, para evitar o derretimento de sua moeda. Será que o FMI vai atuar como instrumento de dominação dos países ricos sobre a “paupérrima” Islândia? Sorte da Islândia que não há qualquer vestígio desses populistas no país. Eles não se criam com uma população altamente educada e instruída.
 
Ainda, nós somos um país onde o custo do ajuste dos bancos foi de 2,5% do PIB, no PROER. Não houve corrida a saques, não houve correntistas perdendo tudo, não houve pânico e nem crise sistêmica. 
 
À época, o PROER foi chamado de roubo, de assalto e de coisas muito piores por nossos políticos “progressistas” e “comprometidos com o povo”.
 
O mesmo povo que teve suas poupanças salvas pelo PROER, com o menor custo de saneamento do sistema bancário de toda a história.
 
Hoje vemos países liberando US$ 2,4 trilhões, um PIB da França, para salvar o sistema bancário. E ainda não se sabe se dará certo. Alguns países poderão, como no caso da Islândia, enfrentar colapso financeiro.
 
Coisa que, no Brasil, ainda não vimos. Chegamos perto durante as estúpidas moratórias de Sarney e JK.
 
No Brasil, os idealizadores do PROER estão todos respondendo pesados processos na justiça. Provavelmente perderão, apesar das evidências da correção do plano. Nosso judiciário está impregnado de ideologias e conta com pouquíssimos magistrados capazes de compreender o prefácio de um livro de economia.
 
Bom, ao menos demos a sorte de Brizola ter perdido a eleição!
 
Fico imaginando em que criancinhas ele estava pensando…
 
That’s all folks!
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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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