Vou falar uma besteira econômica…

Posted on 10/10/2008. Filed under: Finanças |

Eu sempre tento escrever para vocês dentro do mainstream do pensamento econômico, mas vou pedir licença para um brainstorm.

Humildemente, eu quero sugerir uma solução para a crise.

Não, não, por favor tirem esse revólver da testa, não é nada disso…

É o seguinte, quem quiser passar desse ponto do texto, saiba que o que vou escrever é muito perigoso, é uma tremenda mudança no sistema financeiro mundial e não faço idéia do que aconteceria se isso fosse levado a cabo.

Por favor, tenham paciência comigo, é um artigo longo, mas pode MESMO acontecer…

Vamos lá.

Lembram do CDS (Credit Default Swap)?

É um instrumento financeiro criado por gênios de Wall Street que permitia aos bancos darem garantias sobre um determinado fluxo de pagamentos.

Era uma idéia boa, pois, imagine que o McDonalds fosse pegar um empréstimo no Morgan Stanley. O Morgan dava US$ 1 bi de dólares e receberia, por hipótese, 100 parcelas de US$ 12,2 milhões. O que ocorre é que no balanço desse banco, deve constar SEMPRE uma provisão de devedores duvidosos, pois nenhum empréstimo é 100% seguro.

O que o “amigo” Lehmann Bros fazia?

Bom, ele vendia ao Morgan um SEGURO (CDS) para esses recebimentos. Se o McDonalds não pagasse, ele honraria.

Para isso, cobrava 0,05% do total da dívida ao ano.

Para o Morgan era bom, pois poderia classificar esse empréstimo como 100% seguro e para o Lehmann também era bom, pois o McDonalds nunca iria deixar de pagar e ela ainda embolsa uma boa grana.

Isso se alastrou a ponto de haver, hoje, um valor segurado de US$ 52 trilhões de dólares!

E como algumas empresas quebraram, principalmente bancos e seguradoras, os COMPRADORES desses seguros estão cobrando de quem disse que iria pagar, de quem vendeu os CDS.

Seguros falsos…

Evidentemente esses CDS não são seguros de nada, são instrumentos meramente de aposta sobre a capacidade de pagamento de um ente financeiro.

Ou seja, o Lehmann vendeu o seguro ao Morgan, que pode ter repassado isso a terceiros. Na realidade, ninguém sabe quem tem o quê, pois o mercado não tem regulamentação. É totalmente livre.

Pode parecer uma bobagem, mas a crise, ao menos na minha modesta visão (é modesta mesmo), em grande parte está sendo gerada porque o mercado está querendo respeitar as regras do CDS, mesmo ele colapsando na frente de todos.

Acabo de ler na Bloomberg algo que assusta, pela aparente irracionalidade:

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&refer=home&sid=a7u7y24vbV38

US$ 128 bi pendurados na brocha…

Várias instituições haviam vendido seguros garantindo os pagamentos do Lehman Brothers. O Lehman quebrou, o que significa que não pagará nada, ou muito pouco.

O montante é de US$ 128 bi.

As empresas que compraram esses seguros, naturalmente, querem receber sua grana. O que a autoridade responsável pela falência do Lehman faz:

  • Coloca a dívida do Lehman à venda. Por que? Porque alguma coisa, depois da liquidação dos ativos, vai sobrar para pagar as dívidas. Talvez, US$ 50 bi, US$ 60 bi. Ninguém sabe ao certo, é mais uma aposta.

Então eles fazem um leilão dessas dívidas.

A oferta, até o presente momento, está em 9,75 centavos de dólar para cada dólar da dívida. Ou seja, por uma dívida de 100 bi de dólares, as pessoas vão pagar 9,75 bi de dólares. Se, na hora do ratatá final, der para pagar, por exemplo, US$ 18 bi, o cara se deu bem na aposta. Se, depois de venderem tudo, não sobrar nada, o sujeito jogou US$ 9,75 bi no lixo.

Vejam:

http://www.creditfixings.com/information/affiliations/fixings/auctions/current/lehbro-res.shtml

Isso é bem comum. Os bancos, quando não conseguem mais cobrar suas dívidas, revendem essas dívidas para empresas especializadas em cobranças. Acho que vocês devem saber do que estou falando.

Pois bem, essa é a parte bonita da coisa.

Ocorre que, se a dívida for vendida por esse valor, significa que os “vendedores” do seguro (CDS), terão que pagar o resto, ou seja, 90,25 centavos para cada dólar devido pelo Lehman. Isso dá US$ 115 bi.

Quem precisa pagar?

Normalmente são bancos ou fundos. No caso dos bancos, eles vão ter que buscar dinheiro no mercado, com as autoridades monetárias etc., no caso dos fundos, não há o que fazer. Ou tem dinheiro em caixa, ou precisam torrar ativos para pagar.

Ocorre que, por conta dessa generalizada quebradeira, instituições sólidas estão sendo obrigadas a ajustar os preços desses “seguros” vendidos em seus balanços.

Os bancos, que poderiam estar emprestando dinheiro, estão vendo seus ativos serem reduzidos, contabilmente na maior parte das vezes, o que os impossibilita de emprestar mais.

Além disso, ninguém sabe quem está protegendo o quê. O banco A pensa: – E se eu emprestar dinheiro para o banco B e ele tiver vendido CDS para instituições em risco ou falidas?

Por isso não empresta.

O maluquice que quero colocar é:

Por que não exterminar o CDS?

É, simples como isso. Acabar com o sistema de “seguro” privado que está falhando nas duas pontas: não segura nada, e espalha o peso das falências para toda a parte ainda saudável do sistema. Acabar, nesse caso, significa declarar na segunda-feira que TODOS OS CDS devem ser apagados dos registros contábeis.

Por que é razoável aceitar que uma instituição venha a falir e que outras tenham que pagar?

O que vai acontecer é que o organismo financeiro vai ficar todo contaminado pela praga que fez um só banco falir.

Se eu tivesse conhecimentos superiores em biologia talvez pudesse escrever um belo artigo sobre a proliferação de um agente patológico.

É evidente que o que estou sugerindo teria conseqüências imprevisíveis.

Podendo até resolver a crise.

Haverá uma reunião do G7 e outra do G20 nesse final de semana. Não há fórum melhor do que esse para decidir algo dessa magnitude. Eles podem, mas sabem que é tatear no escuro.

Se acabassem com o CDS, os reais credores dos bancos é que ficariam com o pepino na mão. Provavelmente isso é MUITO mais pulverizado do que os “seguros” vendidos. Ou seja, haverá 100.000 entidades perdendo 10.000 dólares e não 10 perdendo perdendo 100 milhões de dólares.

É evidente que alguns fundos têm esses papéis em carteira, e representam grande parte de seu patrimônio. Mas é aí que reside a honestidade do sistema. Eles apostaram em derivativos, perderão tudo. Ponto final.

Em resumo, me parece que o CDS é um dos mais importantes vetores da disseminação da crise financeira. Ele conseguiu espalhar créditos podres para todos os bancos do mundo.

Como disso, é só um brainstorming.

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3 Respostas to “Vou falar uma besteira econômica…”

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Toda vez que eu tento entender economia, fico confuso e volto para a segurança dos meus tratados de física quântica!!! 🙂

Oi Franco,
Concordo com você.
É que os elétrons não têm programa de remuneração variável, stock options e outras tentações que fazem funcionar o “cada um por si”.
Está faltando um Heisenberg e um princípio da incerteza para trazer nossos analistas de volta à razão!!!!

[…] Vou falar uma besteira econômica – de 10/10/2008 […]


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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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