O discurso “The Party is Over” está atrapalhando

Posted on 06/10/2008. Filed under: Finanças |

No mercado não dá para fazer política. Nancy Pelosi, por duas vezes, resolveu bancar a heroína política do povo americano e afirmou que a “festa” em Wall Street havia acabado. Transformou notícia boa em ameaça.
 
Mas ninguém tem se comportado pior do que os europeus. Eles vêm sendo infelizes em atitudes e discursos a torto e a direito. Primeiro, o Fed baixa emergencialmente os juros por várias vezes e o BC Europeu eleva, ininterruptamente. Atrapalhou demais, forçou a queda absurda do dólar e o consequente desequilíbrio no preço das commodities, cotadas em dólar.
 
Falta aos economistas a humildade de entender que não se deve tratar economia como ciência “dura”. Economia não é para botar foguete no céu ou construir edifícios de 300 andares. Economia é fluxo, é aprendizado.
 
Economia é tão eficiente quanto sociologia ou teologia. It’s a matter of belief. E o que falta hoje é isso CRENÇA, FÉ no sistema financeiro.
 
Ah… A justificativa do aumento dos juros era a inflação. Meu Deus, onde essa gente estuda? Hoje, com a queda das commodities, já está se discutindo os perigos da deflação. Apenas 3 meses depois!
 
Neste final de semana, continuaram a fazer burradas. Primeiro, não demonstraram qualquer unidade, ao reunirem só 4 países para debater a crise. Segundo, não soltaram números, não apresentaram propostas claras, nada. Terceiro, continuam dizendo: O sistema financeiro precisa mudar, precisamos de mais controles, a festa da especulação acabou etc. Isso é política. Isso é jogar para a galera. Não ajuda nada.
 
Por um lado dizem: The Party is Over, de outro saem dizendo que vão garantir os depósitos bancários. É difícil acreditar. Não há dinheiro no mundo para garantir depósitos bancários, pois eles são maiores do que o estoque de moeda disponível. São maiores, simplesmente porque é assim que funciona a economia. No big deal. A estrutura dos bancos funciona bem, ao menos na parte regulamentada…
 
Sei que, a esta altura, alguns de você devem estar achando que defendo o laissez-faire na economia. Não, não defendo o laissez-faire absoluto em nada. Porque “absolutos” não funcionam em nada mesmo.
 
É evidente que o sistema de swaps de créditos e outros sem fiscalização foram as sementes e os adubos da crise que enfrentamos. Também é evidente que, sistemas auto-regulados dependem bastante da boa-fé e da honestidade dos participantes. Honestidade, infelizmente, não é artigo abundante.
 
Por outro lado, penso que seja uma decisão errada, muito errada, querer impor fiscalização a um organismo agonizante. Por que não pensaram nisso quando todos estavam se fartando de ganhar dinheiro? Seria mais fácil, poderia ter sido feito de forma ordeira, organizada.
 
Ah, em time que está ganhando não se mexe? Por isso que começa a perder.
 
Era evidente que um sistema que atinge 62 trilhões de dólares iria colapsar cedo ou tarde. É evidente que um sistema que envolve todos os bancos do planeta (exceto Brasil, hope so) merece atenção das autoridades. Mesmo que de longe.
 
Está ocorrendo o que ocorre com qualquer organismo complexo que vê sua sobrevivência ameaçada. Ele se debate, se debate, se debate para tentar se livrar das ameaças.
 
Nesse hora os governos e bancos centrais têm que parar de pensar em política e agir com racionalidade econômica, com um tempero de psicologia de massas. Tem que parar de oferecer a contrapartida aos contribuintes, tem que parar de caçar cabeças de executivos de bancos. A resposta deve ser sistêmica, deve fluir na linha menos danosa. E ela é bem simples. Todos juntos, demonstrando união e foco, elegendo poucos porta-vozes e agindo no sentido de recuperar a credibilidade do sistema financeiro internacional. Todos juntos, que deixem a caça às bruxas para um momento menos conturbado. Que façam com inteligência.
 
Aprendi com um bom amigo a nunca deixar o inimigo sem opção. Simplesmente porque um organismo, humano ou não, sem opções razoáveis busca atos inimagináveis, brutais.
 
Como sempre, o mercado vencerá a política. Seja por conseguir o que deseja dos políticos no curto prazo, seja por deixar-se falhar e comprometer as carreiras de políticos atuais. George Bush já é a vítima mais famosa. Se deixarem, vai Sarkozy, Merkel e outros.
 
As demandas do mercado por redução de juros, por recompra de títulos, por socorro governamental estão bastante claras. Infelizmente os contribuintes na Europa e nos EUA deverão sofrer as consequências imediatas, mas não é hora de fazer “justiça”. É hora de parar com a política, para com os discursos ufanistas, intervencionistas e “justiceiros”.
 
Deixemos a faxina para depois, agora é hora colocar os móveis no lugar. A geladeira está na varanda e o fogão dentro do chuveiro.
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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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