O BC está errado

Posted on 24/07/2008. Filed under: Finanças, Política |

Não gosto muito de afirmações categóricas, mas acho que dá para tratar a decisão de elevar os juros acima da expectativa do mercado, como estúpida. Aliás, subir os juros, no Brasil, tem pouco efeito na demanda e na inflação. Explico em pequenos tópicos.
 
O respeito à careca de Henrique Meirelles
 
Não é só por que o sujeito tem 175 anos de mercado e uma careca reluzente que devemos dizer amém para suas atitudes.
 
O mundo está repleto de “Henriques Meirelles”, sujeitos que fazem sucesso na vida seguindo as receitas de bolo, agindo SEMPRE by-the-book.
 
Aliás, a maior parte dos sujeitos ricos do mundo, o são porque não inventam muito. Assim como quem fala muito tem mais chance de falar besteira, quem inventa muito tem mais chance de fazer bobagem.
 
Só coloco isso para que tenham em mente o seguinte: Os economistas têm as receitas para conter inflação, mas usam a mesma receita em pacientes absolutamente distintos e não fazem a menor idéia da dose que devem usar.
 
E mais importante de tudo: Na história econômica brasileira não há evidências empíricas para demonstrar CLARAMENTE que a atuação by-the-book, seguindo os BCs estrangeiros, tenha dado qualquer resultado na contenção da inflação. Em primeiro lugar nós só temos 14 anos de histórico de inflação “normal”, em segundo lugar nossa política de juros, de 1500 até 2004-2005 tinha só um objetivo: evitar fuga de capitais estrangeiros e conseqüente desastre nas contas externas (leia-se, maxi-desvalorizações do mil-réis).
 
Ajudava a segurar a inflação? Sim, mas era efeito colateral, não era a principal doença da economia brasileira.
 
Subir os juros terá efeito no crédito às empresas e pessoas-físicas?
 
Well, well, well
 
Quando o presidente do FED mexe nas taxas de juros nos EUA, TODA A ECONOMIA se ajusta. Se ele dobra as taxas, espera-se que todo o crédito fique, em média, 2x mais caro. Quando ele reduz pela metade, acontece exatamente o oposto, espera-se que o crédito fique 50% mais barato. Lá e na Europa funciona bem essa questão de juros, pois eles restringem o crédito MESMO.
 
Agora, vejam que lindo é, em Vera Cruz:
 
O BC sobe os juros de 12,25% para 13%, daí vemos o seguinte:
 
  • Os juros do cheque especial sobem de 175% ao ano para 175,8%
  • Os juros do CDC sobem de 4,56% AO MÊS para 4,61% AO MÊS
  • A prestação que, antes era de R$ 221,40 será de R$ 222,31
  • A TJLP, que é a taxa de empréstimo às empresas, NÃO MUDA!!!!! Isso é ridículo…
  • O BNDES continua a emprestar a taxas subsidiadas, e ainda faz propaganda no intervalo de “A Favorita”
  • Há uma infinidade de ONGS facilitando acesso ao micro-crédito COM TAXA SUBSIDIADA para milhões de pequenos empreendedores
  • O crédito imobiliário continua IDÊNTICO, sendo que a baixa renda paga 20% menos do que a SELIC.
 
Ai, ai, até cansa pensar…
 
A natureza da inflação
 
Escrevi recentemente um artigo dizendo que a inflação nada mais era do que um ajuste natural das forças econômicas, que nos alertavam: Vocês não são tão ricos como pensam!
 
Bom, é aquela velha história do pobre comendo filet mignon, assim mesmo, em francês.
Faz sentido? Faz sentido que um bem ESCASSO esteja ao alcance de todos?
 
Nem no capitalismo, nem no comunismo. Talvez na Bíblia, mas aí era Jesus multiplicando pães e transformando água em vinho. Não há esse processo produtivo disponível no mercado.
 
A economia estuda isso mesmo, a escassez.
 
E é evidente para um aluno do pré-escolar de economia que, no capitalismo, se 10 pessoas querem comprar um só bem, seu preço vai subir até que um deles, aquele que dá mais valor ao bem e pode pagar, o compre. No comunismo o bem escasso ficaria com o partidão, mas não seria nem filet mignon, seria no máximo um chã-de-dentro ou um coxão-mole.
 
O BC eleva os juros para reduzir a demanda e conter os preços.
 
Sabemos todos que o que contém a demanda é a falta de dinheiro. Na ilusão do BC, subir os juros restringiria o crédito o que seguraria a demanda.
 
Mas Vera Cruz sempre apronta das suas. O Príncipe-regente insiste em não ajudar seu Banco Central…
 
Veja mais sobre o Pindorama e sua “restrição de consumo”:
  
  • O Bolsa Família, que abriga 44 milhões de pessoas, teve aumento de 8%. Será que vão consumir mais?
  • O Governo consome CADA VEZ MAIS, será que terá impacto na demanda?
  • Cada órgão público que entra em greve consegue, 30%, 40%, 50% de aumento, sem desconto dos dias parados. Será que seus funcionários vão consumir mais?
  • Há uma enormidade de concursos públicos, oferecendo salários acima da média de mercado. Será que os novos funcionários vão consumir mais?
É preciso falar mais?
 
O BC e sua mania de grandeza!
 
Mas não é só o Pindorama que tem problemas com inflação! O mundo inteiro está sentindo os efeitos da entrada de centenas de milhões de pessoas no mercado de consumo.
 
Será que a elevação dos juros no Brasil fará:
 
  • Os chineses e os indianos pararem de querer comprar carne brasileira, minério brasileiro, soja brasileira entre outros?
  • Os pobres do mundo pararem de enriquecer e querer comprar IPod, tênis Nike e Play-stations?
  • O preço das commodities caírem?
  • Os americanos pararem de comprar nosso suco de laranja?
Bom, resta evidente que a atuação do BC brasileiro não terá NENHUM impacto nas expectativas de consumo dos outros países.
 
AHHHHH!!!
 
Mas os BC’s do mundo também estão elevando os juros. Ué, problema deles! Se eles reduzirem o consumo por lá, nosso problema será reduzido. Bom para nós e problema deles.
 
Então, por que aumentar os juros por aqui?
 
Sabe o que é mais ridículo?
 
É que acabará dando certo, pois o movimento é mundial. Mas, tenham certeza, o impacto dos juros no Brasil será, no máximo, psicológico. A força mesmo será da redução no consumo mundial, que ainda não temos certeza ser virá…
 
Mas e o impacto dos juros no dólar, e do dólar na inflação!
 
Tá, vou falar alguma coisa em favor do BC. Mas nem tanto, pois é aí que se esconde o Ovo da Serpente.
 
É evidente que nossa inflação ficou sob controle, em grande parte, pela valorização de nossa moeda. Nós importamos MUITO do que consumimos e a valorização do R$ nos últimos 6 anos ajudou a colocar a inflação para baixo.
 
E para isso os juros do BC ajudam, pois fica interessantíssimo investir dólares na dívida pública brasileira.
 
Olha que lindo:
 
O sujeito coloca US$ 1.000.000 em 2002 em títulos brasileiros. Compra R$ 3.530.000 com o 1mi de dólares.
 
Deixa o dinheiro rendendo, em média, 20% ao ano. Hoje teria perto de R$ 8.000.000, o que, em dólar, dá Us$ 5 milhões ao câmbio de R$ 1,60.
 
Tá feliz o branquinho de olho verde? Tá feliz!
 
Tá feliz a Sinhá Margareth? Tá feliz!
 
Bom, mas agora a situação é outra.
 
Nós levamos 4 anos para termos uma balança comercial forte, o que mostra que, mesmo com o dólar nas alturas (em 2002, 2003, 2004 e 2005), os resultados para as exportações não são imediatos.
 
Estamos em franca inclinação negativa, começando em 2006. Ou seja, quando nos dermos conta, o dólar já terá dizimado nossa capacidade de fazer superávits comerciais.
 
Superávit da conta corrente já morreu. Será déficit superior a US$ 20bi nesse ano, mas logo, logo, não conseguiremos nem exportar mais do que importar.
 
Duvidam?
 
Experimentem um dólar a R$ 1,40.
 
Todos os analistas dizem que as empresas brasileiras afirmavam que o mundo iria acabar com o dólar a 2,50 e não acabou, com o dólar a 2,20 e não acabou, com o dólar abaixo de 2,00 e não acabou.
 
Esquecem-se esses analistas de ler os balanços das empresas exportadoras.
 
Se lessem, veriam que as perdas chegam às centenas de bilhões de reais nesses últimos 5 anos, sem contar com a exportação de projetos produtivos para países asiáticos e para o leste europeu. Dá até tristeza ler o balanço da VCP ou da Marcopolo…
 
É aquele tipo de gente que só consegue ver a árvore, nem sabe que há uma floresta à qual essa árvore pertence.
 
A bolsa pode ser uma proteção contra a inflação e contra o desequilíbrio nas contas externas.
 
Senhores, a coisa é cíclica.
 
Assim como encaramos uma maré de queda do dólar e de inflação no mundo todo, devemos encarar o contrário por agora. Por algum tempo.
 
Para quem está na bolsa, há algumas boas perspectivas nos setores exportadores. Isso porque, mesmo com uma possível inflação, a recuperação do dólar (que só está esperando a crise financeira nos EUA passar) poderá trazer ganhos cambiais significativos. Assim como derrubou os lucros em R$ nos últimos 5 anos, a apreciação do dólar deverá trazer ganhos para quem exporta.
 
Bom, esperemos, so far…
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2 Respostas to “O BC está errado”

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Vai estudar economia antes de tecer esses comentários!
Estou disposto a desconstruí-los, e você está disposto a debater?

Prezado Evandro,
Pode fazer a desconstrução. Se considerar pertinentes as suas observações, ajusto minha percepção, sem problemas.
Espero que o faça sem agressividade.
Não sou doutor em economia, mas não sou neófito.
Pode enviar suas colocações que posto no site.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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