Os bancos americanos não vão quebrar!

Posted on 14/03/2008. Filed under: Finanças, Humor |

Vocês devem estar se perguntando como eu posso afirmar que os bancos americanos não vão quebrar, dada a histeria que toma conta dos mercados há meses.
 
É simples.
 
Os bancos não vão quebrar, porque já estão quebrados. Ainda não faliram, que é um termo contábil para definir melhor “quebrar”. Mas já não têm mais condições de operar de forma autônoma, sem ajuda de entidades federais e fundos soberanos (fundos que cuidam das gigantescas reservas internacionais dos países).
 
Prestem atenção: Se um banco não consegue honrar suas “chamadas de margem”, que é quando algum grande cliente pede para antecipar recebíveis, pode exemplo, o banco está totalmente desbalanceado, à beira do default.
 
E, infelizmente, os bancos e os fundos americanos estão a cada dia perdendo mais sua capacidade de atender ao chamado por antecipação de caixa e otras cositas más…
 
Nenhum banco, por maior e mais confiável, pode se dar ao luxo de registrar prejuízos de dezenas de bilhões de dólares a cada trimestre e sair impune.
 
Os derivativos de crédito são perigosos. Quando um sujeito pede dinheiro para comprar uma casa e o banco cede, tomando a mesma como garantia do empréstimo, temos um produto de crédito imobiliário comum.
 
Agora, quando o sujeito pega esses recebíveis (por hipótese, 300 prestações de US$ 1,000 corrigidas pela tx de juros americana) e transforma em dezenas de papéis de crédito e vende para um terceiro, que vende para um quarto, que vende para um décimo-sexto, que vem a ser um fundo lá da Eslovênia, aí nós temos os tais “derivativos”.
 
Ocorre que a garantia do imóvel só faz sentido para o credor inicial, pois é um banco com escritório na Califórnia e que pode tomar um imóvel na Califórnia. Faz sentido, tem valor e é tangível. Já o esloveno que tem 1/145 do imóvel californiano não tem o que fazer, só registrar o prejota.
 
Pois todos os dias vemos os bancos registrarem suas apreensões quanto a uma corrida generalizada por margens. Hoje é o Bear Sterns, que se não fosse o Fed, quebraria hoje mesmo.
 
O quadro é caótico e mostra a fragilidade dos instrumentos de controle internacionais sobre a ganância dos operadores. Warren Buffet já alerta há anos que esses derivativos são o ovo da serpente no sistema bancário. Ele não costuma errar.
 
O que pode segurar uma quebradeira geral?
 
Bom, antes de mais nada, não há qualquer evidência de contágio nos bancos brasileiros. Eles já ganham demais com taxas de 5% ao mês, não é necessário inventar produtos mirabilantes para ampliar seus lucros.
 
O deve segurar a quebradeira são os maiores interessados em evitar o caos. Os governos de países emergentes. A China não pode se dar ao luxo de ver os EUA comprometerem toda sua capacidade de financiamento de importações. Os bancos centrais asiáticos não podem aceitar que o dólar vire pó, pois têm mais US$ 2 trilhões em caixa. Assim como a Rússia e os países do Oriente Médio, entupidos de petrodólares.
 
Está na hora deles pagarem a conta, dando toda a margem (cash) necessária para que os bancões mantenham sua capacidade de cumprir suas funções básicas de banco. Ou seja, emprestar a quem quer dinheiro emprestado e remunerar quem quer poupar.
 
Grandes prejuízos aos fundos soberanos, aos países que guardam reservas em dólar?
 
Nem tanto. Eles não vão “dar” dinheiro aos bancos americanos. Eles vão comprar a preço de mingau de farinha láctea. Para termos uma idéia, hoje o Itaú vale US$ 60bi, e o UBS (maior banco europeu) vale US$ 59 bi.
 
O mundo estava indo por um caminho tão louco nesse negócio de derivativos, que logo iriam descobrir que o esôfago do elefante tem poderes de curar o câncer e em um mês teríamos mercado futuro de esôfago de elefante na bolsa de Chicago. Ah, e de rinoceronte também, pois é parecido com elefante…
 
That’s all folks!
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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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