Petrobras e os novos poços. Cuidados necessários.

Posted on 11/11/2007. Filed under: Finanças |

Todos sabem o que acontecem com a Petrobras nos últimos dias. Algumas considerações:

(sugiro que quem tem Petrobras na carteira leia até o final)

  1. A notícia apresentada, evidentemente, seguiu um cronograma político, com teor de propaganda. Isso não é bom para o investidor. A Petrobras é uma empresa de economia mista e não deve ser utilizada como válvula de escape para crises governamentais.
  2. Há muita confusão a respeito da “novidade” do poço. Alguns dizem que já sabiam há 2 anos, outros há 6 meses, outros há 3 meses. Isso não faz o menor sentido. A impressão que dá é que é notícia requentada, reformatada para atender a interesses políticos. Isso não é bom para o mercado.
  3. O fato da Petrobras ter subido espantosamente em outubro pode ter indicado o uso indiscriminado de “inside information“. O que é lamentável, não só para a empresa, como para o mercado. Infelizmente as operações acionárias em que o governo esteve envolvido apresentaram suspeitas de informação privilegiada. Dá para ganhar muito dinheiro com informações assim. Para se ter uma idéia, as opções da Petrobras chegaram a valorizar 7.000% somente na quinta-feira.
  4. O poço descoberto, confiando no que o governo diz, realmente mudará, em meados da próxima década, a situação de reservas do país, mas há incertezas severas quando se fala de algo que só vai ocorrer em 2013. Não se tem certeza do custo para bombear esse óleo, não se tem certeza de que o petróleo continuará sendo tão caro, dada a obsessão com a redução de emissões e migração para combustíveis limpos, não se sabe quanto custará para desenvolver esses poços, dado que os custos no mercado de petróleo estão crescendo muito acima de qualquer projeção racional feita pelas companhias.
  5. Por fim, o governo retirou de leilão as áreas de exploração que envolvem esse novo campo. Caso isso signifique a exclusão de capital externo, TENHO CERTEZA ABSOLUTA, que os poços vão atrasar. Não é preciso ir longe, basta voltar à época pré-flexibilização do monopólio. O crescimento depois de tornar bem-vindo o capital privado foi muito maior do que nos anos anteriores. Acho que o governo não vai fazer uma besteira pré-histórica dessas. Isso é coisa de Getúlio Vargas e dos governos militares (O Petróleo é nosso). Se, já na década de 50, tivéssemos permitido a participação de capitais privados e estrangeiros, seríamos auto-suficientes em petróleo já na década de 70. Mas a política é um processo evolutivo…
  6. O lucro trimestral da Petrobras (5,5 bi) veio 22% menor do que o do ano passado (7 bi) e, em média, 30% menor do que a previsão dos analistas (7,5 bi). Ou é um erro inaceitável dos analistas, ou a Petrobras realmente vem se mostrando uma empresa com lucros declinantes, afinal é o quarto trimestre seguido de queda nos lucros.
  7. O que ficou evidente no balanço é que: os custos com a tal repactuação do plano de pensão (Petros) são uma incógnita para os analistas, ninguém acerta seu valor real. A produção está estagnada, quando não em declínio, o custo de extração do barril e de refino cresce à ordem de 20% ao ano, ou seja, não há muito que comemorar, principalmente porque os custos estão em ascensão em todo o mundo, dado o aquecimento do mercado do petróleo. E não vão parar, pois os pedidos das companhias de petróleo estão a todo vapor.
  8. Há muitas promessas de que haverá crescimento da produção nesse novo trimestre. Quem acompanha a Petrobras nos últimos anos, sabe que nem sempre essas promessas se realizam no tempo firmado. Quando chegamos à “auto-suficiência” em 2005, havíamos declarado algo próximo a 2 milhões de barris/dia. Hoje, a produção média no país está em 1.796 mil barris/dia. E evidentemente o consumo aumentou, mas ninguém fala mais em “auto-suficiência”, pois não a temos.
  9. Há certa incógnita com relação ao gás natural. Todos sabem que o custo aumentou significativamente, ficou claro que a Petrobras vai repassar o aumento aos consumidores, mas a impressão é que não vai repassar às termoelétricas. Não é um processo claro. Sem querer ser pessimista, não acredito que o gás seja suficiente para tudo o que precisamos. Devemos torcer por chuva nos reservatórios. Eu estou fazendo a minha parte, estive em Cuiabá na segunda e levei chuva ao Mato Grosso, estive ontem em Aracajú e levei chuva ao Sergipe, estou escrevendo de Salvador e já tem umas nuvens negras que consigo ver da janela do hotel…
  10. Por fim, o preço de mercado da empresa atingiu níveis estratosféricos. A Exxon Mobil, maior empresa do setor, tem um índice P/L de 12,5 (cotada a US$ 86 e com lucro acumulado de US$ 6,84) o que é até baixo para uma economia estável como a americana. A petrobras atingiu um P/L de 17 (preço de R$ 82,00 e lucro acumulado de R$ 4,9). Não vejo motivos para a petrobras ser mais cara do que a Exxon, somente por uma perspectiva de futuro superior ao horizonte de 5 anos.
  11. Ao final do dia, na bolsa americana, as ADRs da Petrobras caíram 10%, mesmo antes da divulgação do resultado. Talvez alguém já soubesse, a essa altura, acredito em tudo. O movimento da semana passada nas bolsas externas foi sofrível. As européias, a americana, a mexicana sofreram as maiores quedas semanais em meses.
  12. Amigos, segunda-feira promete. Não dá para saber o que vai acontecer, mas parece evidente uma correção nas distorções do preço da Petrobras. E em alguns outros ativos brasileiros, que também caíram muito no dow jones na sexta (itaú e Vale próximos de 3% de queda). Bom mesmo é para a bovespa holding, que subiu 7% na sexta!!!!
  13. Por fim, recomendo atenção redobrada aos detentores de petrobras. A volatilidade deve ser espantosa, até que se ache um preço adequado para a empresa.

Se quiserem uma boa dica, invistam sempre com base nos fundamentos da empresas e não em eventos. É menos arriscado.

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    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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