Release da Caixa está Errado sobre os Fundos do FGTS

Publicado em 19/08/2010. Arquivado em: Finanças |

O release do dia 16/08/2010

A Caixa Econômica Federal divulgou um release, por conta do aniversário de 10 anos dos Fundos Mútuos de Privatização da Petrobras (aqueles do FGTS), que afirmava o seguinte:

A rentabilidade dos fundos da Petrobras, administrados pela Caixa, foi 2,5 vezes maior do que a rentabilidade das ações ordinárias da Petrobras (PETR3). Em 10 anos, os fundos teriam valorização de até 896% e as ações PETR3 de apenas 351%.

Tentei, em vão, avisar a alguns meios de comunicação que a informação utilizava premissas erradas e era perigosa, por dar a impressão de que fundos de um só ativo poderiam atingir rentabilidades MUITO MAIS ALTAS do que o próprio ativo.

É possível que a Caixa tenha conseguido chegar a esses valores, mas dentro de uma metodologia incorreta.

Ao menos aos amigos leitores do blog poderei provar, com facilidade, o erro do release.

Veja a matéria: http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?codigo=1926429

O que conta a favor dos fundos?

O valor da ação na oferta pública, à época, foi de R$ 43,07, mas os cotistas do FGTS puderam comprar com 20% de desconto, ficando em R$ 34,46.

Isso, com certeza, garante uma dianteira robusta para os fundos, quando comparados com as ações propriamente ditas. É até bastante razoável aceitar que esse desconto garanta uma rentabilidade maior aos fundos nesses 10 anos, mas não numa diferença de 2,5 vezes.

Outro ponto importante, é que mesmo o valor de R$ 43,07 já era bem menor do que o valor de mercado em 16/08/2000 (R$ 53,04, na média do dia).

A caixa pode ter calculado a rentabilidade das ações PETR3 com base no preço de mercado da época (R$ 53,04), mas isso seria um erro, pois um investidor pessoa física poderia entrar na oferta pública e comprar por R$ 43,07. E ainda poderia comprar muito mais ações (até R$ 100.000) na pessoa física.

Provando da forma mais banal possível

Vamos tratar, tão somente, das bonificações, que foram apenas duas:

- 31/08/2005 – 300% (3 novas ações para cada uma que o acionista possuía na data).
- 25/04/2008 – 100% (1 nova ação para cada uma que o acionista possuía na data).

Veja no site da própria bolsa:
http://www.bmfbovespa.com.br/Cias-Listadas/Empresas-Listadas/ResumoEventosCorporativos.aspx?codigoCvm=9512&tab=3&idioma=pt-br

A conta é bem simples:

  • Quem comprou um lote de 100 ações ao preço de agosto de 2000 (R$ 43,07, conforme release), investiu R$ 4.307
  • Em 31/08/2005, esse montante de 100 ações transformou-se em 400 ações.
  • Em 25/04/2008, esse montante de 400 ações transformou-se em 800 ações.
  • Em 30/07/2010, data usada no release, as ações PETR3 estavam cotadas a R$ 31,84
  • O patrimônio total do investidor seria de R$ 25.472, com um ganho de 491%

É claro que a caixa pode pegar a cotação de mercado do dia (R$ 53,04) e fazer a conta. Vai chegar a 380%. Mas é uma comparação desequilibrada, pois TODOS poderiam ter entrado na oferta pública.

Não termina aí o desequilíbrio metodológico

Os fundos, por obrigação, precisam reinvestir os dividendos e juros sobre capital próprio (JSCP). Comparar um fluxo de reinvestimento de dividendos com uma compra pontual de ações traz um desequilíbrio inaceitável na metodologia.

A comparação deveria ser feita considerando, para o caso da compra direta da ação, o reinvestimento dos proventos.

Eu calculei qual seria o ganho para um investidor que comprou ações diretamente NA OFERTA PÚBLICA. Foram 744% em 10 anos. O resultado dá ainda vantagem aos fundos, que tiveram rentabilidade entre 850% e 890%, mas muito menor do que o sugerido inicialmente.

Os detalhes e a metodologia estão no link abaixo.

http://www.portinho.com/pdf/RentabilidadePETR3.zip

Por fim

Parece uma bobagem gastar tanto tempo com um assunto desses, mas o disparate é muito grande. As pessoas com menos conhecimento de bolsa vão ter a impressão (falsa) de que é possível ser “tão brilhante” na gestão de um fundo de uma só ação, que faria o próprio ativo comer poeira.

A vantagem só existe por conta do desconto inicial. Se a pessoa física pudesse comprar com o mesmo desconto, sua rentabilidade seria de 955%.

E ainda tem o IR… A pessoa física poderia vender essas ações num montante de R$ 20.000 por mês SEM PAGAR IR. No fundo, não tem jeito, é 15% no resgate!

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  • Disclaimer

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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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